28 de fevereiro de 2014

A ira e a desgraça andam de mãos dadas.

Não tenho mais aquela velha e rasa mentalidade de quem acredita na existência de pessoas boas, e pessoas más. Basta uma auto reflexão para eu entender que, como humana sou má e boa. Depende do momento, da minha motivação, daquilo que me estimula, daquilo que me é vital, daquilo que me toca e me domina, daquilo que eu alimento a alma. Mesmo sabendo disso, tento não fazer de um momento ruim, uma maldade que vire um eco e uma desgraça real para além dos meus pensamentos viciosos. Consigo não atingir outros, nem punir outras pessoas por isso, as vezes só eu mesma tomo do meu veneno. Saber do que a gente é capaz quando contrariados, já é castigo suficiente quando temos consciência. 
            A nossa ação é estimulada por pensamentos.  É dentro da nossa cabeça que começamos a criar nossos fantasmas, reis, rainhas, nosso mundo encantado ou desgraçado. Este mundo interno está constantemente sofrendo influências no roteiro, aquilo que nos rodeia fora pensamento, gera um outro pensamento que cedo ou tarde, muda este script. A maioria das vezes, muda para pior, para o pessimismo, para a vingança, para a maldade, para uma ação repentina, para aquilo que não gera vida e muito menos esperança. E não raras as vezes, aquele momento não reflete o contexto geral da nossa história. 
           Um exemplo claro disso, é quando eu estou tranquila no ponto esperando ônibus e vejo outro cidadão xingando, batendo boca com o motorista, sinto que ele está aclamando para eu fazer o mesmo, mesmo que eu não esteja escrevendo aquela historia para mim, naquela hora sinto indignação com o sistema público brasileiro, meus impostos, meu dinheiro e aí, quando vejo já alterei meu script do dia, e quando menos espero, outros que ali estavam fazem figuração, e aquele motorista que é tão vitima do sistema político brasileiro como eu, se irrita com as ofensas e reclamações generalizadas, cansado passa a correr e a desrespeitar os passageiros, até que ele fecha a porta no meio de alguém que estava indo alegremente pra casa  descansar e que não estava se quer a fim de reclamar, porque saiu mais cedo de casa e se preparou para eventuais atrasos. Pronto, o ciclo se encerra com todos nós,  atracados na praia da desgraça. O cenário perfeito para o crime. O descaso público, uma vítima, pessoas indignadas e um culpado (tão vítima quanto).
              Quero dizer aqui que, no que me diz a respeito não quero alimentar este ciclo de desgraça. E acho que, inconscientemente o fazemos, e de diversas formas. A indignação se não direcionada para seus alvos corretos, mata inclusive aquele que a apontou, porque ela se alastra como praga, e gera uma ira incontrolável, a indignação é a prima mais nova da desgraça e a namorada ciumenta da bondade. A indignação é uma mola que, ao ser esticada e solta vai sair batendo em todos os cantos até se estabilizar. 
           Mesmo que o motivo desta indignação seja real e legitimo, eu me preocupo muito para onde estamos caminhando com nossos scripts.  Discursos violentos sendo aclamados, posicionamentos rasos a respeito de tudo sendo levados ao pé da letra como agregadores de valor humano. Não vejo um sorriso gratuito, uma palavra real ( clichê de Facebook não conta) de incentivo ao bem comum.  As pessoas estão se alimentando de crueldade e rindo como se isso fosse seu roteiro principal desde que nasceram.
                 Hoje, as 14:40 pm, eu estava procurando videos para me distrair quando então vi a chamada de um jornal de tv dizendo : preso o homem que empurrou moça no metro da Sé. Fui ver o vídeo por curiosidade, e para tentar entender o que era aquela situação. A repórter perguntou ao homem o porque ele fez aquilo? Se ele conhecia aquela moça de 28 anos, ele respondeu que não a conhecia, mas que o mundo era assim mesmo, injusto, caótico, mau, e que ele não sabe exatamente o motivo da sua indignação, mas que a empurrou e não queria fazer isso, mas fez. Este homem é um cidadão aparentemente lúcido embora muito agitado, segundo o delegado ele escondeu as roupas usadas no crime, o que não demonstra uma atitude de alguém com doenças mentais ( ex: esquizofrenia), mas que a família se quiser pode levar laudos de médicos para então ser cogitada esta hipótese. 
               O fato aconteceu dia 26/02/2014, era aniversário dela, estava completando 28 anos. A moça por ironia da vida não morreu, mas teve um dos braços amputados. E como será que ela vai reagir a isso tudo? Indignação é o que ela deve estar sentindo agora, o que ela tinha a ver com o sentimento e o script escrito por este homem? Nada. Só foi a vítima do que ela nem sabe. Ela, no hospital perguntou ao namorado: e agora? como vou fazer sem um braço? Ele a respondeu, você continuará sendo a mulher mais importante e linda para mim.
             Eu senti tristeza, chorei e vim escrever estas linhas. Talvez essa seja a minha forma de não contribuir para a desgraça generalizada que assola nossas histórias. O amor tem que vencer.

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