Si Caetano
sábado, novembro 07, 2020
Avulsos
O dia no planeta pandemia
Era cedo. Bem cedo, aquela hora sobre a qual se escrevem livros e chamam de milagre, sabe?
Se com o canto da vista eu queria aproveitar o dia com antecedência, com o avesso da alma eu queria dormir infinito.
Não bastasse essa lida doída entre eu e minha sombra, a agenda gritava bom dia. Gritava mesmo, a Alexia me dizendo a hora e simulando o som de chuva é a companhia mais legítima que eu consegui me dar nos últimos meses.
Decidi levantar e enfrentar a cachoeira sem graça daquele cômodo habitual, mas que já foi muito especial em tempos normais. Nada é mais incomum que reinventar a disputa por sentir as gotas tímidas do chuveiro velho.
Ritual feito, agora era a hora certa de sentar na cadeira do escritório e começar o dia com fé direito e muita leveza. Mas a alma disse não. Estava tudo no lugar certo, corpo, mente, projeto, perspectiva, mas estava faltando a ausência que move, faltava ela. Ou talvez, quem sabe, quisesse apenas cumprir um tipo de papel biológico de existir em repouso. Dizem que economizar energia é sinal de inteligência evolutiva quando se tem tão pouco em estoque.
Fato é que esse corpo deitou e não me obedeceu mais. Era inútil lutar contra. A gente tá cansado né? É como se estivéssemos ateus de esperança e não há sono que renove esse despertar mágico. Acordei 4 horas depois, totalmente frustrada por estar atrasada para meu futuro, e por me estar presa ao meu corpo envelhecido pela juventude adiada.
Foi nesse sopro de inviabilidade que começou o dia, só a espera pela organização do caos poderia permanecer, o resto era aquela já conhecida sobra de ausência, que estava sumida, mas achou espaço logo em dia de feira. Fui tentar consultar minha sorte, mas o plano venceu, mudei de novo, e retirei do investimento o que já não fazia sentido. Vou ter que esperar o plano gratuito. Será que agora eu consigo? Deixei pra lá.
Eu queria que esse dia tivesse uma reviravolta digna mas o melhor dele foi agora, finalizando esse texto, com um pouco de incômodo por torná-lo público, mas ao mesmo tempo, pensando que é necessário sustentar nossas ausências, possibilidades e estranhezas.
Daqui vinte minutos a folha branca me convidará para mais uma dança. Que a inquietude tire uma soneca e me deixe acordar de novo, só que agora por dentro.













