Diário de uma Lagarta: Avulsos
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20 de outubro de 2023

sexta-feira, outubro 20, 2023

PEDAÇOS



Levem, quando eu morrer, cada pedaço meu, devoradores!

Peguem as minhas mãos e acariciem seus egos:

Meus olhos e tentem enxergar além das suas pequenas almas

Minha boca e calem para não perceberem o quanto pecam contra a eternidade

Minhas pernas e corram para longe do abismo que tentaram me tragar

Meus ouvidos e digam as mentiras que sempre me disseram para ver se agora, eu ouço 

Mas meu espírito não. Ele é quem eu sou, e este, nem com a minha morte vocês alcançam. 


18 de junho de 2022

sábado, junho 18, 2022

Desconvidado


Sempre levei tudo muito a serio, até minhas brincadeira tem o peso da seriedade que exalo e embora sempre tenha me questionado por isso, vejo que eu não poderia ser diferente pois desprezo quem passa a vida inteira brincando de viver e brincando de acaso. Talvez por isso odiei tanto quem fui antes e quando percebi, já tinha te convidado. 


Eu tenho muito compromisso com o que falo e isso não é força de expressão - meu corpo e minhas ações se comprometem com minhas palavras em todos os poros e isso diz como vou me sentir. 

 

Suspeito que minha estrutura funciona assim, mas isso não significa que tudo seja tão fácil de perceber. Nem eu consigo retirar peso do que sou e as contradições não me deixam seguras (ainda bem). Então, como você pode achar que me leu e agora sabe tudo a meu respeito? 


Sua presença em meu santuário foi um desrespeito com minha alma. Sempre soube que era indigno de estar em minha presença, mas meu compromisso é sempre com a minha palavra e com mais ninguém. 


E você não quis só entrar, você subiu no altar, aproveitou que ele estava vazio e fez parecer que era seu para ocupar. 


Vislumbrei força de quem quer, você simulou muito bem, mas quando percebi que suas palavras eram só brincadeira de quem ainda não aprendeu a viver, já estava tudo imaculado com reflexo do seu cigarro por todos os lados.


Sua pretensão sempre me disse o quanto era inapto para estar em santuários, você é pagão e seu Deus é o próprio ego. Mas você subiu como quem sabe rezar, dançou, fez oferendas e desceu, tudo sozinho. Sozinho não, você ascendeu com a minha descrença.  


Eu sabia exatamente que você iria cair mas não foi fácil ver sua queda. Eu precisei esperar o efeito anestésico ruir para só então aceitar o que eu já sabia. Eu não acredito na realidade, eu acredito no que eu sinto e por isso foi triste ver o santuário vazio, de novo. 

Mas não posso ser leviana, derrubar um deus prepotente, por um momento, me fez sorrir.

Previsível. Afinal, eu não sei brincar, nem perder e só você estava se divertindo.





12 de junho de 2022

domingo, junho 12, 2022

Toda história inacabada é eterna



Senti o pesar como uma nuvem negra perseguindo a tempestade. Embora assim fosse, a chuva dos meus olhos caíram com muita delicadeza - há muito tempo não sentia uma tristeza tão bonita. Era saudade banhada com o mais fino dos argumentos, salpicada com pensamentos que variavam entre momentos de lucidez e constatações fatalistas. Desde então, não tenho a quem recorrer além do meu fone de ouvido e algumas lembranças que já começaram a falhar com o tempo.

Não há lugar de sossego para o arrependimento, não há um único fio que o  traga de volta para mim. Usei uma tesoura tão afiada quanto nossa conexão costumava ser. Penso: pelo menos, a vida está seguindo. O que não impede de me sentir triste exatamente por isso. 

Essa sou eu tentando equilibrar o que não tem equilíbrio - ainda sinto muito - misto de intensidade e lamento por não ter a nossa ilusão disponível no meu radar.

Percebi, tarde, que lia minha alma antes de ler minhas intenções, não importava o que eu dizia ao contrário, e por isso eu sei que escutou o que eu não precisei dizer. Mas não entendeu. E eu entendo.
Era cedo, mas há tempos ando atrasada. Eu não tinha como esperar o ajuste dos ponteiros. Nestes casos, será cedo sempre e é isso que me consola. Mas é inegável o cheiro de eternidade que nossas almas simulavam enquanto o tempo te roubava da minha presença. 

Para mim, a eternidade é sempre pouco, eu sempre desejo ir além.

Embora isso tudo pareça raro, eu sinto muito que só possa sentir assim - longe. 
Embora longe, eu sinto muito perto - ainda. E será assim por um bom tempo. 

Toda história inacabada é eterna. 
É por isso que eu jamais disse adeus.
Mas não vou voltar.







6 de outubro de 2021

quarta-feira, outubro 06, 2021

Em defesa dos intensos (não aos dramáticos)




É muito comum as pessoas confundirem pessoas intensas com pessoas dramáticas, mas essa injustiça eu não vou cometer: o dramático cansa as pessoas, os intensos se cansam. O dramático interpreta que sente muito, o intenso sente e transborda e vaza por todos os poros - é sobre isso que pensei outro dia enquanto tomava banho e rebatia mentalmente alguma situação que não fazia o menor sentido relacionar. 


Queria defender os intensos mas não há defesa, eles estão condenados às piores formas de existir que o ser humano poderia ter - aquelas que precisam sentir muito e tudo e sempre para só então respirar e deitar a cabeça em paz no travesseiro. Não é que eles podem não ser assim, não há saída para o que se é, ou você é ou você simplesmente rasteja pela vida como um zumbi. 


Não dizer o que sente, esconder o jogo e tentar conter os gritos de alegria que a alma dá com qualquer mínima reciprocidade infantil é para quem consegue fazer drama, não para os intensos. Não há cálculo, não há atalho, só há vontade, energia e aquela falsa sensação de poder que a explosão do intenso promete gerar antes de cair em desgraça com as consequências das suas não-escolhas. 


É por isso que o intenso joga limpo, porque ele precisa que o território exista para caber sua explosão, e se depois dela, não houver mais território, nem som algum, só então, eles deixam para lá. 


Mas é um deixa pra lá depois de ter dito tudo que queria, de ter dado todas as coordenadas de onde a bomba vai cair. Depois de instalar o caos, só depois disso, quando já não existir nada além de pedaços e poeira ele vai dizer.


Junta os cacos de si mesmo e vai colar sozinho, não há depois, promete que nunca mais vai se envolver em nada assim tão profundamente. Neste momento ele começa a se regenerar, parece que liga um autolimpante emocional e vai saindo do planetinha sem forma cheio de respostas que não precisava.


Vai rir depois porque não vai encontrar nexo no tamanho do investimento feito para com o estrago colhido é  que não tem a ver com ninguém mesmo, é uma necessidade básica da existência deles.

Mas quer saber? Deixa para lá. 




 

25 de setembro de 2021

sábado, setembro 25, 2021

Primavera das Lagartas




Acordar com raiva é melhor que acordar frustrada - dizia a si mesma para tentar entender essa roupa que sua alma vestiu na última semana - é que despir esperanças vazias e colocar os pés no chão parecia uma longa sinfonia de uma nota dó, mas funcionou.

Encontrar o pote de ouro na mediocridade cotidiana é uma arte que nunca dominou, sempre precisou de mais, aquele mais que não existe no mundo real e não ter para onde escapar quando seu palácio de memórias não faz mais sentido é assustador. 


Não queria mais intercalar respirações fugindo da luz, não queria mais o despertar da vontade, só queria encontrar a si mesma numa varandinha cheia de ar nos pulmões e satisfação na ponta dos dedos. 



Cansou de pegar em facas para defender sozinha uma plantação de cinzas. Decidiu plantar em si tudo que mataria para regar no outro. É aquela coisa de terra fértil, só há veneno por aí  e não há outro lugar mais fértil que sua própria existência disposta a ser mais que uma alma perdida em paixões de mentirinha e enganos mal elaborados. 


Deu ódio, mas aquele ódio que te faz afastar o que te faz mal, sabe? Deu ódio de ser vulnerável, deu ódio de estar disposta a se ferir para curar o desejo, deu ódio de facilitar o caminho de quem não tem pés para sua estrada, deu ódio, deu em todas as flores, ódio de não cortar antes. 


É aquele sentir que desperta a semente da lucidez, que faz colher satisfação e benignidade de espelho. Quando estiver pronta, vai plantar em si, de novo, agora só o que colheu da poda, da distância e do jejum de olhos - que venha a primavera das lagartas. 




15 de setembro de 2021

quarta-feira, setembro 15, 2021

Mergulhar no raso também é necessário



Tem a profundidade de uma xícara, é o que eu digo sempre de quem não vai fundo nas coisas. Mas nem tudo é para ser mergulho, às vezes é só para molhar a pontinha dos dedos e sentir aquele ventinho de verão no final da tarde, é tão gostoso - não precisa ter sentido além disso. Estar onde se está, e não buscar nada além da presença presente, é bonito, é leve.  

Mas nem sempre é simples assim, alguém inventou que tudo precisa ter sentido e significado para além do que estamos vivendo, e talvez, essa seja nossa maldição. É que a linguagem permite que a gente deseje o que não se pode pegar, pior, a linguagem permite que a gente tenha fome de significados abstratos, por exemplo, desejamos o amor do outro, desejamos o desejo do outro, mas o que é isso afinal se não uma imbecilidade que afoga nossa mente em tristeza e agonia?

A gente quer tomar o café pela manhã, ser o café, a xícara, e o pó que sobrou na borra da garrafa. Quando isso não acontece, a água passa da fervura e seca antes mesmo de chegar na garrafa. Era só um cafezinho mas parecia uma ópera angustiante - é isso que o desejo faz com coisas tão simples, vira vício, dá abstinência. 

Quando não tem mais motivo para ferver a água, vai querer criar um. É aí que vai jogar a xícara no chão para ela se quebrar em mil pedaços porque assim talvez, algum dia, ela se junte novamente. Não importa o que ela era, pegou a agonia pelo pescoço e a afogou no raso, sem dar nova chance para o tempo de fervura da água com o pó, preparar aquele cheirinho de fim de tarde. Deixa para lá, é melhor se afogar no raso que boiar no vazio. 






24 de agosto de 2021

terça-feira, agosto 24, 2021

Bad Trip



(Aqui vai um monte de metáfora porque não posso perder a chance da riqueza que ela finge agregar nesse texto)

São 14:55 de uma terça-feira e ela já está na segunda taça de vinho, curiosamente, teve um lampejo de lucidez e tomou um remedinho para não ter tanto efeito colateral desse momento bizarro que subitamente se permitiu ter. 


Colocou Duda para tocar, e está sentindo tanto! É como se tivesse aberto a caixa preta de um avião antes dele colidir num muro de concreto. É muito ruim não conseguir ser esse muro. Infelizmente descobriu que é o avião e a caixa preta está prestes a desgraçar sua autoimagem. Mas tudo bem, a alienação vai conseguir transformar tudo que sente em nada - a viagem dessa bad é o que vai salvar seu voo imbecil em um laguinho raso como a sola de uma havaiana velha - puta que pariu que sentença foi essa? 


Do absoluto nada ela se pergunta: isso tudo é culpa dele? E a consciência (maldita) logo responde: claro que não. É culpa dela mesma, ela não consegue manter o controle de nada, sua cabeça é fudida demais para não inventar qualquer coisa insignificante que tire ela da realidade, já não suportava mais conviver com tanta solidez e existencialismo. Estava sedenta por uma ilusão que valesse cada gota do seu Cabernet.


Chegou a conclusão que, o vazio que lhe preenche desde o momento que se percebeu existente (ela tinha 5 anos) é muito pior que qualquer brincadeira adolescente gritando "você já tem 30 caralho".


Entendeu cada uma das pessoas que por um momento assim desistiu de tudo, e partiu para a memória eterna das outras pessoas que nunca se lembraram o suficiente para perguntar se elas queriam companhia no precipício. Ah, como o ser humano é patético e egoísta. Mas ela não achava que era assim, lutava contra o altruísmo exacerbado que veio instalado de fábrica: todo egoísmo à mostra era só mentira das mais deslavadas. 


Enfim, mais uma tolinha enganada por sua própria vaidade, ou uma boba qualquer que poderia ser enganada por qualquer psicopata que quisesse lhe tirar tudo. Mas ela não teve essa sorte. Teve que lidar com tudo no real sem ter a quem culpar - e você sabe o que isso significa né? 


A viagem ainda está longe de terminar. Aperte os cintos. E sinta muito por ela só não sinta pena, você não sabe o quanto ela é mentirosa quando está vulnerável e carente por atenção. Mas não finge que não sabe do que se trata, ela sabe que você sabe. Nós sabemos! 


(É aqui que você desce mas continua viajando)




14 de novembro de 2020

sábado, novembro 14, 2020

Potências & Problemas





Ter múltiplas potencialidades parece ser mais um erro que uma solução criativa para problemas que não teríamos: é que embora a gente saiba que o presente é uma malha tecida por diversidade, somos filhas da lógica industrial linear, pseudo-segura, homogênea e sem espaço para novidades falhas. E quem garante acerto sem tentativa e erro? 


E por falar em falhas, já notou como estamos o tempo todo nos contradizendo? É que a gente sabe de muita coisa mas faz aquilo que garante o sono e quando se arrisca perde a referência completamente. Em alguns casos, essa dissonância gera colapso paralisando por completo nossa vontade de encontrar um caminho no meio dessa inominável condição de ser: é que a gente precisa dar nome às coisas (de sentimentos à situações). 


Mas como dar nome há algo que está existindo pela primeira vez dentro de você? Algo que você nem sabe exatamente o que é? Seus pais não sentiam isso, seus avós muito menos, talvez seus amigos, mas isso não é algo que a gente joga no papo toda hora, ainda mais quando você acha que todo mundo tá muito seguro vivendo suas escolhas acertadas menos a gente (pelo menos é o que parece ali no Instagram né?)


Querem nos massificar, sempre quiseram. Querem nos convencer de um monte de coisa que ajuda a aniquilar nossas individualidades, mas eu suspeito que o melhor é deixar a espada entrar e cortar em pedacinhos cada uma das nossas possibilidades, porque cada caquinho delas poderá ter asas para fugir de nós e povoar o mundo à força.


Como organizá-las? Essa não é a pergunta, talvez a pergunta certa é por que queremos tanto organizá-las? Fazemos de tudo para derrubar o espírito que paira sobre as águas, queremos que ele entre na lógica e diga haja luz antes do 7° dia, mas não é assim que funciona com o caos, ele não tem relógio.


Talvez a habilidade essencial do presente seja suportar as horas antes de acordar. Nem tudo vai suportar raiar o dia, algumas coisas ficarão pela madrugada mesmo. É melhor deixar a porta aberta e convidar a ausência para conversar, ela tem muita coisa para nos dizer. Os loucos sempre estão à frente de novos dias.




tema de 8 a 14.11: espadas


O naipe de espadas diz sobre algo que acontece no plano mental: a racionalidade, a ideologia, a verdade. Mas também fala sobre os problemas que só existem na nossa cabeça, que tanto nos pressionam e criam grandes conflitos internos. Que tal falarmos mais sobre isso? Publique no seu blog e participe da blogagem coletiva: #estacaoblogagem.


7 de novembro de 2020

sábado, novembro 07, 2020

O dia no planeta pandemia



Era cedo. Bem cedo, aquela hora sobre a qual se escrevem livros e chamam de milagre, sabe?
Se com o canto da vista eu queria aproveitar o dia com antecedência, com o avesso da alma eu queria dormir infinito.

Não bastasse essa lida doída entre eu e minha sombra, a agenda gritava bom dia. Gritava mesmo, a Alexia me dizendo a hora e simulando o som de chuva é a companhia mais legítima que eu consegui me dar nos últimos meses.

Decidi levantar e enfrentar a cachoeira sem graça daquele cômodo habitual, mas que já foi muito especial em tempos normais. Nada é mais incomum que reinventar a disputa por sentir as gotas tímidas do chuveiro velho.

Ritual feito, agora era a hora certa de sentar na cadeira do escritório e começar o dia com fé direito e muita leveza. Mas a alma disse não. Estava tudo no lugar certo, corpo, mente, projeto, perspectiva, mas estava faltando a ausência que move, faltava ela. Ou talvez, quem sabe, quisesse apenas cumprir um tipo de papel biológico de existir em repouso. Dizem que economizar energia é sinal de inteligência evolutiva quando se tem tão pouco em estoque.

Fato é que esse corpo deitou e não me obedeceu mais. Era inútil lutar contra. A gente tá cansado né? É como se estivéssemos ateus de esperança e não há sono que renove esse despertar mágico. Acordei 4 horas depois, totalmente frustrada por estar atrasada para meu futuro, e por me estar presa ao meu corpo envelhecido pela juventude adiada.

Foi nesse sopro de inviabilidade que começou o dia, só a espera pela organização do caos poderia permanecer, o resto era aquela já conhecida sobra de ausência, que estava sumida, mas achou espaço logo em dia de feira. Fui tentar consultar minha sorte, mas o plano venceu, mudei de novo, e retirei do investimento o que já não fazia sentido. Vou ter que esperar o plano gratuito. Será que agora eu consigo? Deixei pra lá.

Eu queria que esse dia tivesse uma reviravolta digna mas o melhor dele foi agora, finalizando esse texto, com um pouco de incômodo por torná-lo público, mas ao mesmo tempo, pensando que é necessário sustentar nossas ausências, possibilidades e estranhezas.

Daqui vinte minutos a folha branca me convidará para mais uma dança. Que a inquietude tire uma soneca e me deixe acordar de novo, só que agora por dentro.

 



 

 

8 de junho de 2018

sexta-feira, junho 08, 2018

A morte do desejo



Morreu e deixou uma mensagem para ela, no meio das coisas achadas, numa folha de caderno. Ela sofreu, se sentiu culpada, achava que deveria ter dito coisas a mais, coisas que supostamente não disse. Chora, começa a investigar como foi que tudo aconteceu, pergunta amigos, vai atrás de pistas. Acorda. Cai em si, lembra que ela e a tal pessoa não se falam mais como antes. Se sente estranha, pega o celular e ameaça fazer o que qualquer pessoa faria, falar com a pessoa, perguntar como está, tentar sondar sobre sua vida, invadir o silêncio, a distância e o abismo de coisas só existiram na sua imaginação. Fingiu por um segundo que não entendeu o que aquilo significava. 

Assim ela fez o que nem todo mundo faria, respirou antes de fazer qualquer coisa, fechou o coração, levantou e lavou o rosto, fez uma viagem à realidade, trouxe de volta os fatos, abraçou a verdade e pediu que ela não te virasse o rosto, nem falhasse com ela. 

Mas a verdade veio junto com o abrir dos olhos naquela manhã, a morte do que nunca existiu foi um grito maior do que qualquer tentativa de contar uma bela história que não acha fundamento. A verdade falou com aquela dor de reviver memórias e disse o que ela custou a admitir lá atrás quando tudo aconteceu. 

Morreu. Morreu mesmo, há muito tempo, a pessoa, a história que ela contou, o sentimento que criou e a razão de existir desse espaço que ainda lhe habitava. Essa era a oportunidade do enterro. Era o velório que já foi feito há muito tempo, mas por alguma razão, o inconsciente não deixava perceber. Hoje ele preparou a cerimônia e ela compareceu.

Sempre podemos ressuscitar os defuntos ou enterrá-los de vez. Hoje a verdade pediu por favor deixe os mortos cuidarem dos mortos, cuide da vida que te habita no presente. Deixe o passado gritar sozinho, você já não está lá. Ela ouviu e mais uma vez acordou, agora por dentro.



12 de janeiro de 2018

sexta-feira, janeiro 12, 2018

Disseram que todos estão mal





Todo mundo está mal. É isso mesmo que você pensa?
Que não tem saída, que está tudo um caos?
Que o mundo não tem jeito, que a vida não tem sentido?
Que sua vida é uma mentira, que ninguém sabe o que está fazendo?
Que estamos sozinhos, que o amanhã não precisa vir?
Será que você está pensando ou apenas ecoando?

Não quero comparações. Só quero constatar
Se o espiral de tristeza que a alma entra
é alimentada pela visão turva de quem não consegue
enxergar o cinza,  alguém jogou o branco no meu breu.

Tem gente muito bem. Se é que você me entende.
Gente que olha pro céu e sorri,
que sente paz no travesseiro, ao terminar o dia
Tem gente muito bem sim. Que não está fingindo no instagram.
Gente que aprendeu a anotar pequenas conquistas
que sente a água escorrer pelo corpo em euforia.

Não, não tá todo mundo mal. Pelo menos não o tempo todo.
É que a gente tem essa mania, acha que as coisas são inertes
como a nossa teimosia. A vida é cíclica. Não fixa.
E o que isso significa? Cada um com sua empatia.

Minha alma que é feita de nuvem, choveu por dentro
e sem querer, limpou minha visão. Minha consciência
aproveitou o descuido e me disse: As conclusões que ela tira
são baseadas em fatos ou em antipatias?

Sentimos desconfortos sutis e queremos jogar a vida no lixo
como se um grito atravessado fosse suficiente pra concluir:
nada faz sentido. Calma. Calma aí.

O mundo é o que a gente vê por dentro.
Eu vejo meu gato, minha caneca preferida e um pote de açaí.
Foi assim que cheguei ao fundo do poço. Mas, foi assim que saí.

Pede desculpas, fala mais baixo, escolhe melhor as palavras
compra seu petisco favorito, vai se dar prazer um pouco,
descobre o que te faz rir, o que te dá prazer e depois disso tudo
com seu coração descansado, pensa de novo.
Acho que tem gente feliz por aí.  É só um palpite.

Si Caetano
Belo Horizonte

20 de maio de 2017

sábado, maio 20, 2017

Para não esquecer



Hoje, especialmente hoje, um sentimento aterrorizante me visitou. Parece que eu cai em mim e voltei ao ponto crítico de uma parte da minha alma que custo a exorcizar: aquela parte cruel que me diz a verdade enquanto eu tento me esconder, me protegendo com ilusões idiotas.  "Você nunca foi amada, não se esqueça disso." Ela me disse. Rebati veementemente, mas entendi. Eu me senti amada e me sinto amada muitas vezes, mas ser amada é algo tão sublime que acho que jamais serei mesmo, nem por mim mesma. 

O que estava ouvindo não vinha só da minha alma, vinha da voz que reprisava tudo o que eu ouvi a minha vida inteira. E não era novidade, novidade seria eu não ser aquela pessoa que vai desculpar quando as pessoas decidem ser babacas. O mais aterrorizante que, segundo elas, pela primeira vez. Eu já fui a primeira vez de muita gente que se descobriu babaca comigo. "Não se esqueça disso". Ouvi e murchei. Naquele momento o gosto de fel tomou conta da minha boca e o sentimento de que "tentam sempre te fazer de lixo para descartar suas merdas" veio forte. Tinha muito tempo que algo não roubava minha alegria. Desde a morte do meu pai não me sentia assim. pensei: vou desabar de novo.

Mas foi diferente. Não me senti lixo. Me senti triste, triste por perder mais um. Mais um ser humano que não fez nada na história da minha vida a não ser me fazer não esquecer que eu não posso esperar nada além do obvio das pessoas. E o obvio há anos, tem sido mais cruel que a verdade.  Se eu parar para pensar mesmo, dá um pavor viver. Mas, não há saída. E eu não quero sair da vida sem que ela me diga exatamente que chegou ao fim. Longe disso. Quero viver, viver bem. Bem longe de viver um filme de baixo orçamento que reprisa semanalmente na sessão da tarde. 

Fiz uma listinha: 

- Não se esqueça que o outro nunca amará você como você merece ser amado. 
- Não se esqueça que você não é lixo, ou descarte de alguém.
- Não se esqueça que você não pode confiar em ninguém, nem em você, 100%. 
- Não se esqueça que se você não confiar um pouco nas pessoas, os relacionamentos são inviáveis.
- Não se esqueça que você não tem culpa por não ser a escolha de alguém. 
- Não se esqueça que por mais que você tenha amigos, eles são pessoas, e sendo pessoas, pensaram no seu umbigo primeiro. 
- Não se esqueça que existem exceções. 
- Não se esqueça de não esquecer quando as pessoas pisam na bola com você. Não se lembre para remoer, se lembre para não cair de novo na mesma cilada. 
- Não se esqueça de lembrar das exceções. Prefira as exceções. 
- Não se esqueça que existe muita coisa boa pra viver, e muitas delas não envolvem outras pessoas. Apenas você e você. 
-Não se esqueça de fazer tudo o que você ama fazer.
- Não se esqueça de sempre reconstruir seus cacos. 
-Não se esqueça que você também é o babaca para alguém. 
- Não se esqueça que no final, tudo é uma grande invenção humana. 
- Não se esqueça que não tem problema não saber para onde ir.
- Não se esqueça que quem te magoa é só um ser humano sem noção, que precisará de ajuda no futuro. 
- Não se esqueça de pedir perdão. 
- Não se esqueça de perdoar. 
- Não se esqueça de tentar. Mas não se esqueça de desistir quando chega a hora. 
- Não se esqueça que o amor é só uma palavra. 
- Não se esqueça que no final, a vida é o que você quiser fazer dela. 
- Não se esqueça de escrever sobre isso. 


Assim fiz. E assim farei. 
Enterrado. Já esqueci.

18 de agosto de 2016

quinta-feira, agosto 18, 2016

Beco sem saída






Não aguento não dizer, mas não suporto ser ignorada
não suporto minha dor, mas não aguento ser rasa.
Não aguento a vida que tenho, mas não suporto viver de mentira
não suporto a crueldade da verdade, mas não aguento te ouvir.
Não aguento a humanidade, mas não suporto extermínio
não suporto frieza, mas não aguento quem faz drama.
não suporto espírito indomável, mas não aguento ter que prender
Não suporto ficar, mas não aguento a ideia de ir embora
Não aguento o país que vivo, mas não suporto quem fala mal dele
Não suporto sentir frio, mas não aguento calor
Não aguento viver sem amor, mas não suporto ensinar a amar
não suporto injustiça, mas não aguento gritos
(...)
não aguento ter que falar o que digo 
mas não suporto não ter o que dizer


Si Caetano

18 de julho de 2016

segunda-feira, julho 18, 2016

Quando ele escreve, quando ela escreve.



Quando ele escreve coisas sensuais: "deve ter borogodó"
Quando ela escreve coisas sensuais: "deve ser puta".

Quando ele escreve sobre relacionamentos: "sábio, inteligente, maduro".
Quando ela escreve: "acha que é psicóloga, quer vender autoajuda, é muito #mimimi".

Quando ele escreve sobre seus relacionamentos: "sensível, romântico, homem ideal, perfeito".
Quando ela escreve sobre seus relacionamentos: "carente, pegajosa, tá precisando de rola, chata, não superou ainda, se expõe demais, tadinha".

Quando ele escreve sobre ela: "conhecedor da alma feminina, gênio, sabe das coisas, vidente"
Quando ela escreve sobre seus sentimentos, sobre como ela realmente funciona: "não é bem assim moça, você não sabe como todas as mulheres funcionam, você é feminista?, mal amada, está precisando de rola".

Quando homem escreve, ele é escritor, incontestável.
Quando a mulher escreve, tem que provar que sabe e mesmo assim, há controvérsias.

Quando ela escreve, embora saiba o que quer dizer, afinal, verdadeiramente sabe sobre ela mesma, e talvez, saiba mais sobre elas do que eles: não vale! 
Afinal, ela é só uma mulher.

-Só? Tem certeza?




25 de junho de 2016

sábado, junho 25, 2016

Olá Companheira



Era uma tristeza tão familiar que entrou pela porta, colocou o pé no sofá, abriu a geladeira e pediu para abaixar o volume do pensamento. Eu disse olá, mas queria mesmo era mandá-la embora, fingir que não conhecia, virar a cara, ficar indiferente. Não deu. Sua presença era convidativa, era inverno em mim, sentia frio, busquei um café, me sentei com ela e fomos conversar. 
Não se pode negar velhas amizades, por mais difíceis que suas presenças sejam, de certa forma, nos fazem bem. Mas a tristeza é daquelas amigas sazonais que não podem ficar muito tempo se não ao invés de duas, viramos uma só. Eu entendi isso com muito custo, já cheguei a pensar que ela era eu, que eu era ela, para nos dividir e estabelecer as fronteiras declarei guerra, e assim foi, descobri que ela tinha nome próprio e não era o meu. Ela não tem consciência disso não, se eu não gritasse ela ficaria para sempre assim, mesclada em mim.  

O silêncio é o cálice da tristeza, e foi assim que conversamos. Servi meu silêncio com doses de café. Meus pensamentos ao contrário da minha voz, não se calaram um segundo. 

- Não faz sentido - era a única sentença que eu conseguia pronunciar. 

Ela em silêncio me olhava nos olhos, com aquele olhar marejado que denuncia empatia como quem responde por telepatia. Eu ouvi com meu coração cinza: - eu sei.

Passaram uns minutos e eu ainda tinha uma sutil repulsa à sua presença, não queria me render assim tão facilmente, sabe quando a gente se cansa de viver os mesmos enredos? Ela significava uma história que eu já conheço o final. Esperei um pouco, e num impulso ( novidade para mim) eu disse:

- Vou escrever sobre você!
  (Ela se assustou e eu também)

- Vou falar da sua visita, vou escrever como me sinto quando você chega, vou dizer o que você significa para mim, vou falar que estou com você agora aqui em casa, vou falar com as pessoas sobre você. 

Ela se emocionou. Eu levantei, liguei meu PC e comecei a escrever. Quando percebi ela havia ido embora sem se despedir, até agora não sei se ela gostou ou não, talvez eu nunca vá saber. 
Ela vai voltar, eu sei. Enquanto isso, eu quero terminar esse texto para que ela saiba que não a odeio, pelo contrário, mas não posso passar o tempo todo com ela, nossa relação é boa mas preciso conhecer outros sentimos por mais tempo, preciso viver outras experiências com a alegria, com a alienação, com o encantamento, eu preciso de ter um pouco mais de paz, preciso ter espaço para a plenitude do amor, preciso sorrir, ( eu adoro gargalhar). Quero redescobrir o sentido ou criar um. Não quero que os obstáculos sejam mais difíceis que eu, eu não vou facilitar para ninguém, ninguém facilitou nada para mim. Resistência eu já tenho, só preciso resistir um pouco mais, e mais. Vou comprar uma caixa de lápis de cor, vou ver vídeos de catiorros, vou fazer memes, vou lembrar das coisas que deram certo, muitas coisas deram certo também... Enfim. 
Deixei um recado para ela, vê se ficou bom:

Miga, gostei da sua visita. 
Mas não posso viver só para gente. 
Preciso de mais interações.
Espero que entenda.
 Bjo

Si Caetano 

 

28 de maio de 2016

sábado, maio 28, 2016

A culpa é minha



Sou estuprada a cada 11 minutos.
Minha alma e dignidade são manchadas
a cada segundo.
Não posso mostrar meu rosto
Não posso ter gosto
Não posso ser livre
Não posso andar na rua
Não posso ter desejo algum
Não posso negar sexo
Não posso falar o que sinto
sem que isso pese sobre mim
Não recebo justamente pelo que produzo
sou peso morto ainda que viva
Sou estepe, mercadoria
vitrine, objeto de luxo
Só valho alguma coisa quando
me calo. Quando silencio.
Quando finjo que não incomodo
quando desisto de mim.

Sou culpada de antemão, vadia,
vagabunda, que não sabe
o seu devido lugar.
Que não pode usar a razão.
Sou um buraco que só serve
para  esperma depositar.


Sou a putinha que não se cala
que quer ter direito à fala
que não aceita a supremacia
de um gênero, de um falo
que toma tapa na cara
porque terminou um relacionamento

Enfim, confesso todos os meus crimes,
eu aceito todos os meus defeitos.
Meu maior crime, é ser mulher
meu maior pecado é não ter dono.
Pode me crucificar.


Si Caetano
28/05/2016

6 de maio de 2016

sexta-feira, maio 06, 2016

O ciclo da autossabotagem




A gente sabe o que tem que ser feito. Se promete lealdade. Coloca no papel, pensa em como fazer, vislumbra os resultados, suspira. Organiza tudo, começa a semana arrumando armários, exclui mensagens velhas na simbologia de poder limpar memórias internas, reflete sobre os desejos, pondera, renega, se segura, não exagera, você sabe o que tem que ser feito. 


Dorme, e no outro dia esquece tudo.

Abre os olhos como se não soubesse a que veio, só lembra do que foi suprimido pelo bom senso, não faz o que tem que ser feito, enrola, mexe no celular, enrola, não abre o caderno para checar as anotações, enrola mais um pouco, deixa crescer a sensação de incomodo, deita, mexe no celular de novo, não come, levanta mais uma vez agora com esperança de começar o dia, já são meio dia, almoça. Cochila, mexe no celular, procura as mensagens antigas, restaura as apagadas, checa mágoas, fuça páginas, enrola. Chegou. São 17:00pm. Nada foi feito. Mas agora você começa a fazer tudo o que deveria ter sido feito às 09:00am. Não dá tempo. Desespero, urgência. Ansiedade domina, vem o descompasso. Qualquer vírgula pode ser mal recebida, instala-se o caos. Tudo isso porque não obedecemos a primeira regra - não se sabote jamais.




20 de abril de 2016

quarta-feira, abril 20, 2016

Floresc(eu)




Finalmente, eu cresci.

Não consigo me reconhecer

nas antigas tolices
que me prendiam ao berço da vida,
o que me faz ninar a mente,
já está no chão
o que me deixa de pé
são os tombos
que ensinaram a levantar.


Finalmente, eu sai do deserto

não sei por quanto tempo

nem sei se estou no rumo certo

não importa, o caminho me faz

estou mais alerta.


Finalmente, eu respiro

o ar da minha identidade

meu RG bate com a foto

que faço de mim mesma

olho no espelho e me vejo

somos amigas - passado e presente.

cortei as daninhas e cultivei

outras sementes

sou fruto dessa colheita

eu por mim mesma

com as podas de mim


Finalmente, esvaziei a mala

aquela cheia de entulho

restos de sentimentos da alma

da paranoia delirante de

viver todos os dias no

mesmo lugar, na mente.


Finalmente, eu sei

sou eu mesma,

sempre fui,

eu não sabia

que cada nuance

era parte integrante

do que eu sou agora

e sempre foi - um leque

de mim.


eu assumo a autoria

Aceite quem puder

quem não puder

não sei... só sei que

nunca mais vou

negar a alegria

de ser quem eu sou

de viver o que eu vivi

de me contentar com

o que ficou.

Eu fiquei, inteira

DESABROCHOU.


24 de março de 2016

quinta-feira, março 24, 2016

Não estou à venda



Enlatados
Eles são bem chatos. 
Querem que eu seja
como eles são. Monocromáticos.
Não dá, eu desisti. 
Eu não caibo no padrão 
não sei fazer à moda 
nasci para ser artesã.
Levo tudo comigo
da raiva ao perdão 
e me refaço.
Não sirvo ao padrão 
sou peça única 
da minha própria coleção

E você acha que pode me comprar?
Não estou à venda 
não sou de coletivos
não me encontrará 
em promoção
não me alinho aos ísmos
não tenho coerência 
não bato continência 
a nada nem ninguém 
não me curvarei 
ao mundo digo não.
Enquanto buscam se encaixar 
eu quebro a caixa
vejo sinal em tudo
mas não me vejo em nada
Meu valor é incalculável
e você ainda acha 
que me comprará com dinheiro? 
Cala boca mundo lixo
seu mercado imundo 
só merece meu desprezo.


22 de fevereiro de 2016

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

A natureza poética da vida





  Eu nasci e sempre quis saber porquê
procurei respostas, sentidos, me iludi, cansei...
me conformei.
E quando eu achei que não havia sentido
a vida me leva à metamorfose.
No casulo da minha alma
eu só tinha minhas questões sem resposta
e algumas dores... muitas dores.
Foi quando descobri
o sentido que eu tanto buscava:
estava dentro de mim
A vida é em mim
a potência que me faz evoluir
Quando eu estiver pronta
abrirei minhas asas e voarei rumo a serenidade
de ser quem eu nasci para ser
A terra é um grande casulo cheio de lagartas
em metamorfoses, prazer sou uma delas.



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