Diário de uma Lagarta: Prosa Poética
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18 de junho de 2022

sábado, junho 18, 2022

Desconvidado


Sempre levei tudo muito a serio, até minhas brincadeira tem o peso da seriedade que exalo e embora sempre tenha me questionado por isso, vejo que eu não poderia ser diferente pois desprezo quem passa a vida inteira brincando de viver e brincando de acaso. Talvez por isso odiei tanto quem fui antes e quando percebi, já tinha te convidado. 


Eu tenho muito compromisso com o que falo e isso não é força de expressão - meu corpo e minhas ações se comprometem com minhas palavras em todos os poros e isso diz como vou me sentir. 

 

Suspeito que minha estrutura funciona assim, mas isso não significa que tudo seja tão fácil de perceber. Nem eu consigo retirar peso do que sou e as contradições não me deixam seguras (ainda bem). Então, como você pode achar que me leu e agora sabe tudo a meu respeito? 


Sua presença em meu santuário foi um desrespeito com minha alma. Sempre soube que era indigno de estar em minha presença, mas meu compromisso é sempre com a minha palavra e com mais ninguém. 


E você não quis só entrar, você subiu no altar, aproveitou que ele estava vazio e fez parecer que era seu para ocupar. 


Vislumbrei força de quem quer, você simulou muito bem, mas quando percebi que suas palavras eram só brincadeira de quem ainda não aprendeu a viver, já estava tudo imaculado com reflexo do seu cigarro por todos os lados.


Sua pretensão sempre me disse o quanto era inapto para estar em santuários, você é pagão e seu Deus é o próprio ego. Mas você subiu como quem sabe rezar, dançou, fez oferendas e desceu, tudo sozinho. Sozinho não, você ascendeu com a minha descrença.  


Eu sabia exatamente que você iria cair mas não foi fácil ver sua queda. Eu precisei esperar o efeito anestésico ruir para só então aceitar o que eu já sabia. Eu não acredito na realidade, eu acredito no que eu sinto e por isso foi triste ver o santuário vazio, de novo. 

Mas não posso ser leviana, derrubar um deus prepotente, por um momento, me fez sorrir.

Previsível. Afinal, eu não sei brincar, nem perder e só você estava se divertindo.





12 de junho de 2022

domingo, junho 12, 2022

Toda história inacabada é eterna



Senti o pesar como uma nuvem negra perseguindo a tempestade. Embora assim fosse, a chuva dos meus olhos caíram com muita delicadeza - há muito tempo não sentia uma tristeza tão bonita. Era saudade banhada com o mais fino dos argumentos, salpicada com pensamentos que variavam entre momentos de lucidez e constatações fatalistas. Desde então, não tenho a quem recorrer além do meu fone de ouvido e algumas lembranças que já começaram a falhar com o tempo.

Não há lugar de sossego para o arrependimento, não há um único fio que o  traga de volta para mim. Usei uma tesoura tão afiada quanto nossa conexão costumava ser. Penso: pelo menos, a vida está seguindo. O que não impede de me sentir triste exatamente por isso. 

Essa sou eu tentando equilibrar o que não tem equilíbrio - ainda sinto muito - misto de intensidade e lamento por não ter a nossa ilusão disponível no meu radar.

Percebi, tarde, que lia minha alma antes de ler minhas intenções, não importava o que eu dizia ao contrário, e por isso eu sei que escutou o que eu não precisei dizer. Mas não entendeu. E eu entendo.
Era cedo, mas há tempos ando atrasada. Eu não tinha como esperar o ajuste dos ponteiros. Nestes casos, será cedo sempre e é isso que me consola. Mas é inegável o cheiro de eternidade que nossas almas simulavam enquanto o tempo te roubava da minha presença. 

Para mim, a eternidade é sempre pouco, eu sempre desejo ir além.

Embora isso tudo pareça raro, eu sinto muito que só possa sentir assim - longe. 
Embora longe, eu sinto muito perto - ainda. E será assim por um bom tempo. 

Toda história inacabada é eterna. 
É por isso que eu jamais disse adeus.
Mas não vou voltar.







6 de outubro de 2021

quarta-feira, outubro 06, 2021

Em defesa dos intensos (não aos dramáticos)




É muito comum as pessoas confundirem pessoas intensas com pessoas dramáticas, mas essa injustiça eu não vou cometer: o dramático cansa as pessoas, os intensos se cansam. O dramático interpreta que sente muito, o intenso sente e transborda e vaza por todos os poros - é sobre isso que pensei outro dia enquanto tomava banho e rebatia mentalmente alguma situação que não fazia o menor sentido relacionar. 


Queria defender os intensos mas não há defesa, eles estão condenados às piores formas de existir que o ser humano poderia ter - aquelas que precisam sentir muito e tudo e sempre para só então respirar e deitar a cabeça em paz no travesseiro. Não é que eles podem não ser assim, não há saída para o que se é, ou você é ou você simplesmente rasteja pela vida como um zumbi. 


Não dizer o que sente, esconder o jogo e tentar conter os gritos de alegria que a alma dá com qualquer mínima reciprocidade infantil é para quem consegue fazer drama, não para os intensos. Não há cálculo, não há atalho, só há vontade, energia e aquela falsa sensação de poder que a explosão do intenso promete gerar antes de cair em desgraça com as consequências das suas não-escolhas. 


É por isso que o intenso joga limpo, porque ele precisa que o território exista para caber sua explosão, e se depois dela, não houver mais território, nem som algum, só então, eles deixam para lá. 


Mas é um deixa pra lá depois de ter dito tudo que queria, de ter dado todas as coordenadas de onde a bomba vai cair. Depois de instalar o caos, só depois disso, quando já não existir nada além de pedaços e poeira ele vai dizer.


Junta os cacos de si mesmo e vai colar sozinho, não há depois, promete que nunca mais vai se envolver em nada assim tão profundamente. Neste momento ele começa a se regenerar, parece que liga um autolimpante emocional e vai saindo do planetinha sem forma cheio de respostas que não precisava.


Vai rir depois porque não vai encontrar nexo no tamanho do investimento feito para com o estrago colhido é  que não tem a ver com ninguém mesmo, é uma necessidade básica da existência deles.

Mas quer saber? Deixa para lá. 




 

25 de setembro de 2021

sábado, setembro 25, 2021

Primavera das Lagartas




Acordar com raiva é melhor que acordar frustrada - dizia a si mesma para tentar entender essa roupa que sua alma vestiu na última semana - é que despir esperanças vazias e colocar os pés no chão parecia uma longa sinfonia de uma nota dó, mas funcionou.

Encontrar o pote de ouro na mediocridade cotidiana é uma arte que nunca dominou, sempre precisou de mais, aquele mais que não existe no mundo real e não ter para onde escapar quando seu palácio de memórias não faz mais sentido é assustador. 


Não queria mais intercalar respirações fugindo da luz, não queria mais o despertar da vontade, só queria encontrar a si mesma numa varandinha cheia de ar nos pulmões e satisfação na ponta dos dedos. 



Cansou de pegar em facas para defender sozinha uma plantação de cinzas. Decidiu plantar em si tudo que mataria para regar no outro. É aquela coisa de terra fértil, só há veneno por aí  e não há outro lugar mais fértil que sua própria existência disposta a ser mais que uma alma perdida em paixões de mentirinha e enganos mal elaborados. 


Deu ódio, mas aquele ódio que te faz afastar o que te faz mal, sabe? Deu ódio de ser vulnerável, deu ódio de estar disposta a se ferir para curar o desejo, deu ódio de facilitar o caminho de quem não tem pés para sua estrada, deu ódio, deu em todas as flores, ódio de não cortar antes. 


É aquele sentir que desperta a semente da lucidez, que faz colher satisfação e benignidade de espelho. Quando estiver pronta, vai plantar em si, de novo, agora só o que colheu da poda, da distância e do jejum de olhos - que venha a primavera das lagartas. 




15 de setembro de 2021

quarta-feira, setembro 15, 2021

Mergulhar no raso também é necessário



Tem a profundidade de uma xícara, é o que eu digo sempre de quem não vai fundo nas coisas. Mas nem tudo é para ser mergulho, às vezes é só para molhar a pontinha dos dedos e sentir aquele ventinho de verão no final da tarde, é tão gostoso - não precisa ter sentido além disso. Estar onde se está, e não buscar nada além da presença presente, é bonito, é leve.  

Mas nem sempre é simples assim, alguém inventou que tudo precisa ter sentido e significado para além do que estamos vivendo, e talvez, essa seja nossa maldição. É que a linguagem permite que a gente deseje o que não se pode pegar, pior, a linguagem permite que a gente tenha fome de significados abstratos, por exemplo, desejamos o amor do outro, desejamos o desejo do outro, mas o que é isso afinal se não uma imbecilidade que afoga nossa mente em tristeza e agonia?

A gente quer tomar o café pela manhã, ser o café, a xícara, e o pó que sobrou na borra da garrafa. Quando isso não acontece, a água passa da fervura e seca antes mesmo de chegar na garrafa. Era só um cafezinho mas parecia uma ópera angustiante - é isso que o desejo faz com coisas tão simples, vira vício, dá abstinência. 

Quando não tem mais motivo para ferver a água, vai querer criar um. É aí que vai jogar a xícara no chão para ela se quebrar em mil pedaços porque assim talvez, algum dia, ela se junte novamente. Não importa o que ela era, pegou a agonia pelo pescoço e a afogou no raso, sem dar nova chance para o tempo de fervura da água com o pó, preparar aquele cheirinho de fim de tarde. Deixa para lá, é melhor se afogar no raso que boiar no vazio. 






12 de janeiro de 2018

sexta-feira, janeiro 12, 2018

Disseram que todos estão mal





Todo mundo está mal. É isso mesmo que você pensa?
Que não tem saída, que está tudo um caos?
Que o mundo não tem jeito, que a vida não tem sentido?
Que sua vida é uma mentira, que ninguém sabe o que está fazendo?
Que estamos sozinhos, que o amanhã não precisa vir?
Será que você está pensando ou apenas ecoando?

Não quero comparações. Só quero constatar
Se o espiral de tristeza que a alma entra
é alimentada pela visão turva de quem não consegue
enxergar o cinza,  alguém jogou o branco no meu breu.

Tem gente muito bem. Se é que você me entende.
Gente que olha pro céu e sorri,
que sente paz no travesseiro, ao terminar o dia
Tem gente muito bem sim. Que não está fingindo no instagram.
Gente que aprendeu a anotar pequenas conquistas
que sente a água escorrer pelo corpo em euforia.

Não, não tá todo mundo mal. Pelo menos não o tempo todo.
É que a gente tem essa mania, acha que as coisas são inertes
como a nossa teimosia. A vida é cíclica. Não fixa.
E o que isso significa? Cada um com sua empatia.

Minha alma que é feita de nuvem, choveu por dentro
e sem querer, limpou minha visão. Minha consciência
aproveitou o descuido e me disse: As conclusões que ela tira
são baseadas em fatos ou em antipatias?

Sentimos desconfortos sutis e queremos jogar a vida no lixo
como se um grito atravessado fosse suficiente pra concluir:
nada faz sentido. Calma. Calma aí.

O mundo é o que a gente vê por dentro.
Eu vejo meu gato, minha caneca preferida e um pote de açaí.
Foi assim que cheguei ao fundo do poço. Mas, foi assim que saí.

Pede desculpas, fala mais baixo, escolhe melhor as palavras
compra seu petisco favorito, vai se dar prazer um pouco,
descobre o que te faz rir, o que te dá prazer e depois disso tudo
com seu coração descansado, pensa de novo.
Acho que tem gente feliz por aí.  É só um palpite.

Si Caetano
Belo Horizonte

18 de julho de 2016

segunda-feira, julho 18, 2016

Quando ele escreve, quando ela escreve.



Quando ele escreve coisas sensuais: "deve ter borogodó"
Quando ela escreve coisas sensuais: "deve ser puta".

Quando ele escreve sobre relacionamentos: "sábio, inteligente, maduro".
Quando ela escreve: "acha que é psicóloga, quer vender autoajuda, é muito #mimimi".

Quando ele escreve sobre seus relacionamentos: "sensível, romântico, homem ideal, perfeito".
Quando ela escreve sobre seus relacionamentos: "carente, pegajosa, tá precisando de rola, chata, não superou ainda, se expõe demais, tadinha".

Quando ele escreve sobre ela: "conhecedor da alma feminina, gênio, sabe das coisas, vidente"
Quando ela escreve sobre seus sentimentos, sobre como ela realmente funciona: "não é bem assim moça, você não sabe como todas as mulheres funcionam, você é feminista?, mal amada, está precisando de rola".

Quando homem escreve, ele é escritor, incontestável.
Quando a mulher escreve, tem que provar que sabe e mesmo assim, há controvérsias.

Quando ela escreve, embora saiba o que quer dizer, afinal, verdadeiramente sabe sobre ela mesma, e talvez, saiba mais sobre elas do que eles: não vale! 
Afinal, ela é só uma mulher.

-Só? Tem certeza?




19 de fevereiro de 2016

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Por favor ser humano


Salvador Dali



Por favor, não se entregue ao limbo em vida, não cai na esparrela de abdicar dos sentimentos, não tenha medo de sofrer, não seja covarde. 

Por favor, sofra. É assim que deve ser.

Têm coisas que só farão sentido depois que você sentir na pele o fogo do não, da rejeição, das suas limitações, você tem que sofrer. Você precisa aprender a sentir dor, é ela que te fará conviver com empatia e te mostrará a verdade: VOCÊ NÃO É IMBATÍVEL. E não deveria ser mesmo, deixa isso para os deuses ou os psicopatas. Não se venere, não venere psicopatas.

Por favor, não finja: uma hora você esquece que está fingindo e passa a ser assim pra sempre. A gente aprende por repetição, então não finja ser o que não é. Deixa seus demônios a mostra. Eles serão exorcizados pelas verdades sobre você. Não tenha medo delas.

Por favor, abra os olhos para tudo que pode ser vivo e transmitir vida a sua alma: não se deixe hipnotizar pela medusa do entretenimento vazio, já experimentou olhar para o céu hoje? 
A natureza te dará respostas, você vai pensar coisas ilógicas, mas se elas fazem sentido para você, considere. Chamamos isso de: intuição. 

Por favor, não mutile sua existência. Não faça dela maneta, cuide de todas as áreas da sua vida como se fosse cuidar de uma flor diariamente e se respeite. Você é parte de um cosmos, organizado e em movimento.

Por favor, não compre ideias baratas, elas te darão ressaca por toda existência. Geralmente, te dão um alívio imediato mas não geram frutos sadios. Estão contaminados pelo mercado da felicidade a qualquer preço, não pague por isso. Não tem valor. Felicidade não pode ser comprada. Cada um deve fabricar a sua.

Por favor, não ignore o valor da vida. Não vá com a manada rumo ao nada. Busque o seu sentido, um caminho que pode ser só seu, e ele certamente será perfeito para você, se não encontrá-lo, crie.

Por favor, não dê tanta importância ao que dizem a seu respeito, incluindo o que você diz. Quem você é de verdade sempre fala mais alto, então descubra quem você é. Ou pelo menos, se dedique a saber mais de você, e goste disso. Seu sistema operacional interno funciona de um jeito único, se colocar algum aplicativo fora do padrão de fabricação, não roda. Lembre-se disso. 

Por favor, sinta e sinta muito.  Jogue fora esse pacote de jargões feitos para robôs, que só sabem repetir funções, comprar peças padronizadas e usar uniformes. Seja um modelo único da sua espécie.

Por favor, seja humano. Um humano que se dedica a aprender a viver. A viver melhor, a tornar a sua vida melhor e a vida das pessoas que estão a sua volta. Você faz parte de algo, todos na natureza cumprem uma função. Descubra a sua.

Tire a etiqueta da testa, você não é produto do mercado, você pensa, você sente. Até uma bactéria tem mais função na terra que um ser humano morto em sua própria existência, se sinta desafiado por ela. 

Te falaram que viemos do caos? Sim. Viemos. Somos um caos. Um baita caos que se organizou e estabeleceu o que ninguém até hoje consegue fabricar. VIDA. 
Então, aproveite a sua da melhor maneira possível. 

Acorda e vive. Viva a vida de ser humano, seja bem-vindo ao planeta terra.
Todos nós precisamos de você vivo e funcionando. 

                                                                               







14 de maio de 2015

quinta-feira, maio 14, 2015

Urgente: devolva minhas ilusões



A realidade me matou. A ilusão me mantinha com esperança. Ter esperança com consciência da realidade parece quase impossível. Quando eu vejo os fatos sinto medo e um bocado de tristeza. Alegria é impossível quando se tem consciência latente. No máximo, por um momento distraído. Alegria perene, não. A realidade não dá folga. Ela dá no máximo trégua.

Já a ilusão nos dá um outro olhar, vemos mas vemos uma realidade diferente, mais coerente, mais cheia de oportunidades, igualitária, com sentido de plenitude, mais conveniente, mais acolhedora, mais bonita, mais merecedora de crédito. Quem tira a ilusão de alguém, deve saber que está assassinando uma alma atoa. Para que viver consciente neste mundo cão? Onde a realidade brinca com sarcasmo, zomba da nossa boa vontade, e nos humilha mostrando o tempo todo a nossa impotência diante da sua força?

Preciso de uma ilusão, por favor me iluda, com fé, me dê de novo aquela religião forte, que justifica minha pobreza. Não suporto mais ter tanta consciência do mundo sombrio que estamos metidos. Não tenho mais nada a que me agarrar. Não tenho um dogma inquestionável, não tenho uma utopia platônica, não tenho um time infalível, não tenho um dom anormal, não faço nada pela humanidade, não saio de casa com saquinhos plásticos recicláveis, não acredito que os animais sejam melhores que humanos, não consigo achar nos livros a melhor viagem que o homem inventou, não pratico esportes, não quero ser a melhor mãe do mundo, não quero fazer melhor para deixar um legado para outros, não consigo acreditar no futuro, não confio em quem não olha nos olhos, nem em quem não se expõe ao ridículo, nem em quem não sabe rir de si mesmo,  não acredito em boas intenções, não acredito em palavras de ações contrárias, não quero mais escrever um livro, não acho que a família é imaculada, acho que livros de autoajuda são a causa maior da desgraça na terra. E agora?

Talvez eu esteja tendo apenas um dia triste, talvez essa seja minha atual realidade, não sei. Mas, se pudesse dar um grito para o mundo ouvir seria - Ressuscita-me ignorância!




Belo Horizonte, 23/04/2014

4 de maio de 2015

segunda-feira, maio 04, 2015

Oração de quem escreve



Antes de escrever, faço essa oração: 

Quero ser invisível aos olhos do insensato. Aquela gente que só repete e não reflete. 
Que minhas palavras sejam expressões e não armas contra mim mesma, nem contra o outro. Não quero assassinatos com minha escrita, só quero aliviar a alma, só quero expor o que eu sinto, o que calo, o que espalho. 
Que não ajunte sobre mim o peso da má interpretação, nem dos sentimentos, nem dos meus textos, menos ainda dos meus pensamentos soltos. Que as múltiplas possibilidades sejam as primeiras a se apresentar e que, a identidade verdadeira se apresente, sem precisar explicar. 

Que cada um consiga retirar do que escrevo, aquilo que necessita para si. E se não conseguir, que respeite quem conseguiu. Que não entendam cada linha, uma autobiografia do autor, mas que absorvam o dna dele, contido em cada cenário descrito, como o criador ou escondido nas entrelinhas.  

Que espalhem pela rede minhas escritas, mas que digam que são minhas e não usurpem minhas palavras, como se fossem delas. Que não matem minha expressão, dizendo que não me pertencia. 

Que as palavras que de mim saem derrubem o que já deveria ter caído, e que construa o que pode ser absolvido. Que mantenha o que é base. 
Que não falte inspiração.

Que não falte dor, que sobre amor e que mais que livros, eu produza afetos. 

Pois um conjunto de belas palavras não são suficientes para construir um bom texto.

É preciso dizer algo. Que vai além de escrever.
Eu digo inferno, mas queria mesmo era ler céu. 
Já dizia J. Castro. Queria dizer isso também.

Amém. 


3 de maio de 2015

domingo, maio 03, 2015

Choro é sinal de vida




Acumulamos orgulhos e tristezas no coração até entupir a percepção da vida. Quando cai em nós uma gota de consciência e amor, desaguamos esses entulhos em forma de choro, uma copiosa tempestade de lágrimas que saem jogando tudo pra fora. 

Perdemos o ar, suspiramos pesado, balbuciamos grunhidos como se fossem palavras, pedimos socorro a existência, molhamos a camisa e ficamos ali, até secar.

Passado o soluço, mais que de repente, nossa alma responde: agora chega, já me lavei, pode levantar.

Tomamos um banho, um bom café, dormimos e seguimos pela vida. No dia seguinte, como se nada tivesse acontecido, lá estamos nós de novo, a entupir as veias da alma com alguns entulhos, recolhemos os antigos e acrescentamos novos.

Não penso que não aprendemos, penso que enquanto vivermos neste mundo, todo ser de carne há de sagrar. Nem que seja pelos olhos. Quem perde a capacidade de chorar, já morreu ou nunca viveu de verdade. 

Meu desejo sempre será, que nunca percamos a capacidade de 
de chorar. Chorar é se renovar. É se dar chance de limpar, é se arrepender, é ressuscitar. É se afetar. 
Todo ser que tem afeto, se afeta. Afetará. 


Si Caetano  - 03/05/2015

17 de setembro de 2013

terça-feira, setembro 17, 2013

E por falar em amor

Crédito imagem: Minilua.com



Eu sempre falei sobre o amor. Com certo saudosismo de quem nunca viu, mas queria ter certeza que ele existia. Sempre disse que ele, deveria acontecer primeiro, antes de qualquer outro sentimento.

Porque sem ele, a vida não vive. Não vinga, no máximo existe. Mas, parece que existir sem experimentar o amor, não tem sentido. Não dá liga, é cheio de vazios.

Esse tempo sem encontrar com o amor nos faz viver no tempo, mas sem perceber as horas.
Sempre tive esperanças, mesmo que solitárias. 

Sabia que ele existia, queria mesmo era desafiá-lo.

Ele que me encontre. Dizia no auge do meu cansaço experimental.


Pensava eu, que já havia pelo menos conhecido, poderia ter um dia o perdido, ou quem sabe tê-lo escondido naqueles lugares que depois a gente mesmo esquece.
Nunca tinha experimentado seus sintomas, como vontade espontânea de estar errada, ter medo de perder a pessoa amada, a sensação de simplesmente querer bem, pedir perdão estando com razão, coisas loucas que ouvia por aí.

Mas ele parece escolher o solo fértil dos corações cansados, para se apresentar.

E um dia, ele me veio de óculos, camisa de super herói, jeans, tênis, com um sorriso largo, olhos alegres, e muita, mas muita sintonia na mochila pesada, cheia de livros.

E desde que eu o conheci, tenho tido esses sintomas, entre outros tantos.
E desde que eu o conheci, não duvido mais da existência dele. Desde o dia em que minhas mãos puderam sentir o calor das mãos dele, eu não mais duvidei.

Sim, ele existe. O amor é real. E ele vem assim, embutido dentro da pessoa que você descobre ser mais que um simples amigo, um companheiro, um amante, um cúmplice, um anjo sem asas, um demônio sem chifres e sem tridente. Que pode te levar para o céu, ou para o inferno no mesmo segundo, desde que você saiba aonde quer ir, desde que você saiba que o encontrou, desde que você abra seus olhos e deixe o coração mostrar, firmar, assoprar as brasas e deixar queimar.

O melhor dessa entrega é que, quanto mais ele queima, quanto mais ele arde, mais ele produz brasas mais alegria eu sinto, mais a vida me traz respostas.

E o sentido está nisso. Saber que a vida não é só feita de desencontros, nem de pessoas sozinhas e tristes, nem de pessoas descartáveis e fúteis.E mesmo que chegue um dia em que o portador de tamanha joia se afaste, mesmo assim a chama se mantém acesa.

Agora, nós que o descobrimos passamos a ter os olhos mais brilhantes em qualquer lugar que nossas almas se lembrem, um do outro.E, então, com nome e sobrenome, endereço, e-mail, nickname, mesmo que a distância física se apresente não tenho a menor dúvida. Eu o conheci com ele, é ele.

O amor. Simples, livre, colorido, e arrebatador. E assim de brinde na cordinha do barbante, vem amarrada a paixão. Com encaixe perfeito de cheiros, desejos, vontades e suspiros.

Existe forma melhor de viver nossos dias aqui nesta terra?
Não, eu acredito que não.

Enquanto ele estiver aqui dentro, eu estarei assoprando as brasas.
Meu amor, amor.
Igual ao seu, nunca existirá.
Antes de você, nunca existi, nem existiu.

Seu nome fez simbiose com a palavra, amor.
Desconheço outro sinônimo. 
Desconheço-me sem você.



Belo Horizonte, 16 de Setembro de 2013.



30 de setembro de 2011

sexta-feira, setembro 30, 2011

A imagem.



Então ela ficou ali parada, olhando aquela imagem 
que traduzia a beleza de forma ímpar ao mesmo tempo 
que confundia todas as suas palavras e acalmava tanto seu coração.
Poderia ser até mesmo uma  miragem mas não , era verdade.
E com todas as possibilidades que uma verdade pode ter e causar.

Falta então saber o enredo daquela imagem. 

Com todas suas histórias, sensações, e emoções.

Mas nem só de olhos e sensações vive-se!
Afinal já se sabe : que a beleza está nos olhos de quem a observa.


01/05/2011


2 COMENTÁRIOS:


@minorulandia disse...
nossa... isso foi lindo.
Si Caetano disse...
=D

28 de março de 2011

segunda-feira, março 28, 2011

Para pessoas especiais




Pessoas que dão a cara a tapa e assumem as consequências de suas escolhas,  que sofrem muitas vezes caladas, não transferem seus problemas para outras pessoas resolverem e nem ficam procurando culpados para seus fracassos.


Pessoas que não andam buscando "fórmulas de sucesso" para que elas possam copiar, não passam a vida procurando trilhas que elas possam percorrer, mas que criam suas próprias trilhas, correm sua própria corrida, matam seus próprios leões, vivem suas vidas, escrevem seu próprio destino, assumem seus erros,  não se alinham com a mentira, são independentes de terceiros humanos, dependem somente da vida, da fé e do amor. 

Pessoas que se assumem, que se arrependem, que não se escondem atrás do que a maioria deveria ser para ser aceito socialmente, não dizem algo para agradar mas dizem aquilo que querem dizer.

Pessoas que, não interpretam a própria existência, mas caminham de peito aberto em plena luz do dia, deixam seus cabelos ao vento sem preocupação nenhuma de como isso possa parecer aos olhos alheios.

Pessoas que são desbravadoras, pessoas que vão á frente e abrem caminho para os demais,  inovadoras. 

Pessoas que a maioria por despeito total, costumam dizer: esse(a) teve sorte ! Sorte ?! - Não , acho que tiveram a coragem que a maioria não teve !

Pessoas que geralmente são excluídas de forma hipócrita simplesmente porque a maioria não suporta conviver com autenticidade, ofensiva sim afinal a verdade agride, principalmente o ego ferido daqueles que nunca saem dos sonhos e do se eu tivesse feito isso, se eu fosse assim...

Ah os covardes ! Esses que geralmente dizem : Eu também não queria mesmo, ou então:  isso não era para mim... (não era porque não foi, porque se tivesse sido, o discurso era outro).


Pessoas que  geralmente quebram protocolos, quebram as leis, quebram as normas e que erram e como erram !  Estas que estão acostumadas a ouvir a frase glória dos que gostam de ostentar razão: Eu não te disse? eu não te falei que ia dar errado ? como se estivessem torcendo para que elas quebrassem a cara para terem razão e saberem que não eram os únicos a fracassar. 
(Não confundir isso com um toque de amor de quem se tem carinho e respeito)


Essas pessoas são raras, as vezes são reconhecidas, outras vezes não, mas pode ter certeza elas mesmas nunca dirão isso sobre si. Estão em nosso meio, recebendo dedos apontados,  muitas vezes até desprezo, mas possuem história para contar das quais foram atores principais e roteiristas de seus filmes, e que filmes...

Podemos chamar de corajosas, determinadas, e sejam o que for, elas vão preferir ser chamadas pelos próprios nomes, porque sucesso e fama na verdade para estas pessoas, é viver a vida intensamente.  

Essas pessoas merecem ser ouvidas, na maioria das vezes não tem diplomas, não são as mais belas, e muito menos as mais "santas" aos olhos humanos e menos ainda politicamente corretas , mas sem dúvida são as  pessoas que para mim vivem de verdade na luz, porque não querem ter nada à esconder de ninguém, estão de peito aberto para a vida, são interessantes e por isso merecem todo o meu respeito. Essas pessoas são especiais, eu admiro, para estas  pessoas eu bato palmas.


Si Caetano - 28/03/2011

2 de agosto de 2010

segunda-feira, agosto 02, 2010

Diário de uma lagarta.


Dias difíceis , dias de morte para mim, tempo difícil.
Não há nenhum gemido audível, nenhum sangue visível, pois meu corpo ainda se move. É difícil morrer quando se está vivo e muito vivo por sinal.

Alguns olhos atentos me observam, não veêm sair de mim lágrimas, eles não entenderiam qual seria a fonte delas. Não entendem e nem poderiam pois eles são mortos, cegos, sem sensibilidade, sem afeto real. Saber disso me entristece ainda mais.

A dor da alma humana ninguém vê só seu criador , a morte do "eu" ninguém vela e o corpo se movendo ninguém entende ou espera que já esteja crucificado. A cada novo dia, ele está lá pedurado e todos passam, o tempo passa e ele deve continuar lá. Sim ele deve continuar.

Nesse processo diário, qualquer barulho forte , tempestade , ou uma leve brisa tenta. E como sou tentada a tirá-lo. 

Tudo nesse mundo é tão tentador. Tudo é tão parecido com ele, o tentador.

Minha alma grita , quer , deseja , planeja descer da cruz. Sugere ao meu corpo que burle, furte, faça, haja, tudo para tirá-la desse sofrimento. Mais meu corpo já não quer obedecê-la mais. Meu amor por ele tem falado mais alto que a dor. 

E meu "eu" aos poucos desaparece. Mais minha identidade não. Ele renasce, ela nasce novamente e novamente a cada amanhecer.

Percebo que tenho me transformado dia após dia em uma tela em branco, percebo que "meus rabiscos" estão sendo apagados depois que "certo sangue" foi derramado sobre a tela. Pensei que iria manchar, mais não ... tornou a tela branca , mais alva que a neve. 
Então percebo que nada me faz mais feliz do que isso : sentir ELE sobre essa tela em branco que é minha vida ! 

Eu tenho medo ás vezes de tirar as mãos do pincel mais algo diz para mim que Ele é bom nisso, ele é um artista profissional, digo para mim mesma e é verdade , devo apenas crêr e esperar.

Para a Terra que era sem forma e vazia de repente ele disse:
- Haja Luz , e a luz se fez. ( Gênesis 1-3)

Assim será em mim, no momento dele, no tempo dele, do jeito dele, sei que ele dirá. E tudo de repente mudará, eu sairei do casulo, como em um abrir e fechar de olhos. 

Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro.
Filipenses 1-21 

N'ele , esperando ... 

Si Caetano.

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