Carta a um velho amigo - Diário de uma Lagarta

1 de novembro de 2026

Carta a um velho amigo



Há 10 anos neste mesmo dia eu recebi a notícia que você não estava mais aqui. Eu não fiquei órfã só de pai, eu perdi um grande amigo. Perdi uma excelente companhia para conversar sobre qualquer assunto. Eu nunca tive que fingir que gostava de você, que estava ali só pelo laço familiar. Eu gostava da sua pessoa tal como era: irreverente, divertido e ao mesmo tempo gentil e muito forte. Que alma forte (bem, é o que você deixava a gente pensar, mas no fundo acho que você precisava de mais abraços, nunca te vi chorar).

Sabe pai, o mundo mudou muito, virou uma loucura depois que você se foi. O país já passou por uma pandemia, a política tem colocado amigos e vizinhos uns contra os outros por causa de homens velhos, lembra muito o que aquele Austríaco ressentido fez no passado, mas os velhos de hoje são mais burros e menos carismáticos e os jovens só querem minutos de fama e dinheiro (ainda bem).

Então aquilo que eu falei que você não viveria para ver seus netos se não cuidasse da saúde, bem, eu não tive filhos. Sei lá, da minha parte pelo menos eu nunca senti que seria mãe e isso sempre foi tranquilo pra mim, você sabe o que eu penso sobre o assunto. Mas a Amanda teve uma linda e doce menina, você iria adorar conhecer.

Você disse uma vez que tinha medo do quanto eu iria sofrer nesse mundo porque sou muito idealista e sonhadora, quero dizer que você está certo. Continuo pegando cachorro na rua e levando pra casa.

Meu coração anda em pedaços. Eu ainda não sei viver por aqui. Eu já pensei inúmeras vezes em desistir. Inúmeras. Nunca desisti de verdade. E acho que isso nunca vai acontecer.

Sempre senti que existia uma sombra me acompanhando, essa sombra é o preço que eu pago todo dia por desejar o que não existe. Mas tudo bem, eu pago todas as minhas contas sozinha, como sempre foi.

Embora eu esqueça de mim várias vezes, eu não esqueço de você. Eu me lembro de você e do Fantasminha. Você não chegou a conhecê-lo, ele veio quando você se foi e ele já foi também, ano passado.

Não restou quase nada, nem o retrovisor. Mas ainda olho pro futuro com esperança de quem chegou agora. Essa menina que você colocou no mundo nunca foi embora e nunca cresceu de verdade.

30/10/2026

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