25 de setembro de 2021

Plantar em si



Acordar com raiva é melhor que acordar frustrada - dizia a si mesma para tentar entender essa roupa que sua alma vestiu na última semana - é que despir esperanças vazias e colocar os pés no chão parecia uma longa sinfonia de uma nota dó, mas funcionou.

Encontrar o pote de ouro na mediocridade cotidiana é uma arte que nunca dominou, sempre precisou de mais, aquele mais que não existe no mundo real e não ter para onde escapar quando seu palácio de memórias não faz mais sentido é assustador. 


Não queria mais intercalar respirações fugindo da luz, não queria mais o despertar da vontade, só queria encontrar a si mesma numa varandinha cheia de ar nos pulmões e satisfação na ponta dos dedos. 


Cansou de pegar em facas para defender sozinha uma plantação de cinzas. Decidiu plantar em si tudo que mataria para regar no outro. É aquela coisa de terra fértil, só há veneno por aí  e não há outro lugar mais fértil que sua própria existência disposta a ser mais que uma alma perdida em paixões mentirinha e enganos mal elaborados. 


Deu ódio, mas aquele ódio que te faz afastar o que te faz mal, sabe? Deu ódio de ser vulnerável, deu ódio de estar disposta a se ferir para curar o desejo, deu ódio de facilitar o caminho de quem não tem pés para sua estrada, deu ódio, deu em todas as flores, ódio de não cortar antes. 


É aquele sentir que desperta a semente da lucidez, que faz colher satisfação e benignidade de espelho. Quando estiver pronta, vai plantar em si, de novo, agora só o que colheu da poda, da distância e do jejum de olhos - que venha a primavera das lagartas. 


Si Caetano.

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