Diário de uma Lagarta

20 de outubro de 2023

sexta-feira, outubro 20, 2023

PEDAÇOS



Levem, quando eu morrer, cada pedaço meu, devoradores!

Peguem as minhas mãos e acariciem seus egos:

Meus olhos e tentem enxergar além das suas pequenas almas

Minha boca e calem para não perceberem o quanto pecam contra a eternidade

Minhas pernas e corram para longe do abismo que tentaram me tragar

Meus ouvidos e digam as mentiras que sempre me disseram para ver se agora, eu ouço 

Mas meu espírito não. Ele é quem eu sou, e este, nem com a minha morte vocês alcançam. 


9 de julho de 2022

sábado, julho 09, 2022

E por falar em mentira


Eu sempre falei que tinha uma história de amor para contar, mas na verdade eu assumo que esta foi a maior mentira que eu contei. Eu tenho uma história de tempo, e na maioria dela, eu perdi. Se eu tivesse a lente que tenho agora, teria percebido antes que amar é verbo, é ação do sujeito que ama, e só. O sujeito ama só. Ele quer muito e a qualquer preço, e no final, o preço que se paga não vale a mentira que se conta. Você, sujeito, ignora a limitação do objeto amado e o cobre com a sua habilidade, você vive mentindo que é amado de volta também, quando na verdade, só amou. Só, amou. 


Quando olhar para trás com os olhos que a realidade te dará, (porque ela é implacável) o que verá é um monte de horas perdidas como analista de um sujeito sem nenhuma ação, sem nenhuma remuneração, nenhuma mesmo. Nem o título de melhor pessoa que passou pela minha vida vai valer, isso porque, com 5 minutos você não valerá absolutamente nada diante de qualquer outra pessoa que ocupe aquele lugar de muleta que você foi. Sim, você foi só isso mesmo. É que tem gente que vive assim, a cada novo encontro, uma nova melhor pessoa da temporada vai surgir. 


Parece banal mas é o máximo que algumas pessoas alcançam, o problema é quando você acha que pode ser algo além disso para elas. Esse problema é seu, não delas.


Essa é outra mentira que eu contaria, dizendo que a culpa é do ser que simplesmente não tinha suporte em si para viver essa dinâmica devolvendo em proporção o que se esperava. Mas a culpa é minha, a culpa é sua. A gente precisava dessa mentira, precisava vivê-la para descobrir a verdade - tem tempo na vida que é assim, a gente se apoia no que dá conta de suportar e tem que se perdoar para conseguir lidar com as próximas mentiras que virão. Porque virão. Viver é ter olhos para suportá-las e escolher com qual delas você vai casar.


Mas será inevitável pensar que se pudesse voltar no tempo mudaria o roteiro, mas não pode. Sim, você perdeu tempo engolindo seu desconforto constante para deixar pessoas felizes, deixou de se sentir amada porque achou que amar era mais nobre, ignorou inúmeros sinais vermelhos que qualquer um percebia latejando menos você, e o mais importante, aceitar o fato de que é a sua história e você tem que respeitá-la com dignidade. 


Sendo assim, o que resta depois de uma grande mentira é isso, juntar os arrependimentos, misturar com a ira, salpicar com o desprezo, ponderar com o bom senso, permanecer e finalmente aprender: amar não é suficiente. Nem amor era.



25 de junho de 2022

sábado, junho 25, 2022

O outro lado de Hannibal: a empatia pura de Will Graham




Hannibal é um personagem intrigante da literatura, que foi consagrado no cinema mundial por Anthony Hopkins, em 1991, em Silêncio dos inocentes. O Dr. Lecter de Hopkins aparece pouco mais de 16 minutos no filme, tempo suficiente para render um Oscar ao ator, e imortalizar o psicopata canibal no imaginário das pessoas. Recentemente, mais precisamente em 2013, o roteirista e produtor Bryan Fuller revisitou o universo de Hannibal e trouxe para a TV uma série, também, baseada no livro Red Dragon, o primeiro livro da trilogia no qual o psicopata aparece.



O clássico perfil do psicopata que causa medo, repulsa e pavor imediatos é banhado de sutileza na série, eis o novo perigo deste tipo de narrativa. Em alguns momentos, você pode acabar torcendo pela crueldade. O desafio dos personagens que convivem com Hannibal, assim como o de quem assiste, é sentir medo de um homem refinado, elegante, persuasivo e belo, que ninguém sabe ao certo quando vai atacar.



A maldade cruel e sofisticada do personagem Hannibal Lecter, interpretado pelo ator dinamarquês Mads Mikkelsen, nesta nova versão, em momento nenhum leva o público a comparar interpretações com o clássico psicopata de Hopkins. Na série, diferentemente do filme, o telespectador faz um mergulho mais profundo com os personagens através de um mundo insano de percepções, questionamentos filosóficos e conflitos de personalidade, apresentando personagens fora do padrão de psicopata vilão e agente do FBI herói que prende o criminoso e salva a mocinha. Fullher traz uma nova roupagem para o clássico dos cinemas, com um trillher psicológico sombrio e perturbador.

O Will Graham é um dos personagem centrais do livro Red Dragon, agente especial do FBI e caçador de serial Killers. Casado, cidadão acima de qualquer suspeita, pai, possui uma percepção apurada, mas nada fora dos limites da normalidade. Nos cinemas, este personagem foi interpretado por Edward Norton no filme Red Dragon, 2002, uma tentativa frustrada de reavivar e dar continuidade ao grande sucesso que foi Silêncio dos Inocentes.



Já o Will Graham, de Bryan Fuller, interpretado pelo ator Hugh Dancy, apresenta o lado oposto da psicopatia, uma empatia total e angustiante. Ele começa a série solteiro, professor da academia do FBI , estranho e sem qualquer traço de bom 'mocismo' social, típico do personagem retratado nos cinemas.





Ele tem um distúrbio de personalidade chamado na série de "empatia pura", uma capacidade quase sobrenatural de se colocar no lugar do outro, de sentir como o outro de se perceber como o outro, fato esse que leva o personagem a se isolar, a não olhar nos olhos das pessoas, a se esconder do mundo por medo de sofrer ou entrar em colapso. E em alguns momentos, podemos pensar que ele será de alguma forma o equilibrador perfeito para a psicopatia de Hannibal, se empatia é o que falta no psicopata, ele tem de sobra.




Mas é justamente através da "amizade" com Hannibal que fica claro o quanto essa personalidade empática sem restrições é tão disfuncional quanto a psicopatia. A relação entre os dois personagens centrais é incômoda, mas assustadoramente cativante. Aos poucos, com muita insistência, Will vai se "abrindo" ao mundo através do FBI e do seu psiquiatra. Certamente temos uma visão pré-concebida dos personagens desse tipo de enredo, e esta visão é reformulada ao longo dos diálogos impecáveis, entre uma sessão de terapia e um assassinato, entre um jantar preparado pelo psicopata, e uma noite de sono mal dormida do Will.



O que no início da série poderia ter gerado uma certeza de oposição e de que essa oposição era convencional, ao decorrer dos capítulos, nem o próprio Will sabe mais. O que alguns chamam de dom, ele enxerga como maldição, já que ao traçar os perfis dos criminosos ele se imagina matando as pessoas, como se fosse o assassino. A linha que separa sua empatia pura dos limites morais de certo e errado parece fina.


Temos a nítida sensação de que Graham está sempre olhando para o abismo e inevitavelmente este abismo o olha por dentro e o modifica. Como uma crisálida o personagem passa por uma metamorfose ao absorver outras percepções como se fossem suas, não conseguimos ter certeza se o que vai sair do casulo é uma borboleta linda e colorida ou mariposa feia e assustadora. E é esta característica do Will que cativa a atenção de Hannibal e a nossa.


Cada vez que ele encontra o método preciso dos assassinos que procura para prender, temos um misto de sensações perigosas: o bem venceu o mal, ou não existe essa divisão? O que fica bem claro é que, prender o psicopata da vez, é o que importa ao FBI, mesmo que isso custe o equilíbrio mental já limitado do professor/investigador.




Will Graham consegue levar o telespectador a se interessar por uma personalidade pouco interessante aos olhos naturais, tida a grosso modo, como uma personalidade de perdedores, aqueles que sentem demais, que se afetam demais, são tidos pela sociedade como seres de menor importância, não é de se espantar que os psicopatas façam sucesso e atraiam mais olhares, ainda que todos saibam exatamente o seu papel. Fazendo reservas entre ficção e realidade, existem pessoas empáticas ao extremo na vida real, tanto quanto existem psicopatas.

É esta personalidade metamórfica que faz o personagem Will Graham ser rico e cativante tanto ou mais que Hannibal, ele não divide atenções com o psicopata, ele contribui para o enriquecimento da trama. Ele quer desafiar o público a perceber detalhes, a olhar para o outro lado nas sutilezas, ainda que num enredo sombrio e insano. Ainda que sejam duas partes diferentes da mesma moeda.


18 de junho de 2022

sábado, junho 18, 2022

Desconvidado


Sempre levei tudo muito a serio, até minhas brincadeira tem o peso da seriedade que exalo e embora sempre tenha me questionado por isso, vejo que eu não poderia ser diferente pois desprezo quem passa a vida inteira brincando de viver e brincando de acaso. Talvez por isso odiei tanto quem fui antes e quando percebi, já tinha te convidado. 


Eu tenho muito compromisso com o que falo e isso não é força de expressão - meu corpo e minhas ações se comprometem com minhas palavras em todos os poros e isso diz como vou me sentir. 

 

Suspeito que minha estrutura funciona assim, mas isso não significa que tudo seja tão fácil de perceber. Nem eu consigo retirar peso do que sou e as contradições não me deixam seguras (ainda bem). Então, como você pode achar que me leu e agora sabe tudo a meu respeito? 


Sua presença em meu santuário foi um desrespeito com minha alma. Sempre soube que era indigno de estar em minha presença, mas meu compromisso é sempre com a minha palavra e com mais ninguém. 


E você não quis só entrar, você subiu no altar, aproveitou que ele estava vazio e fez parecer que era seu para ocupar. 


Vislumbrei força de quem quer, você simulou muito bem, mas quando percebi que suas palavras eram só brincadeira de quem ainda não aprendeu a viver, já estava tudo imaculado com reflexo do seu cigarro por todos os lados.


Sua pretensão sempre me disse o quanto era inapto para estar em santuários, você é pagão e seu Deus é o próprio ego. Mas você subiu como quem sabe rezar, dançou, fez oferendas e desceu, tudo sozinho. Sozinho não, você ascendeu com a minha descrença.  


Eu sabia exatamente que você iria cair mas não foi fácil ver sua queda. Eu precisei esperar o efeito anestésico ruir para só então aceitar o que eu já sabia. Eu não acredito na realidade, eu acredito no que eu sinto e por isso foi triste ver o santuário vazio, de novo. 

Mas não posso ser leviana, derrubar um deus prepotente, por um momento, me fez sorrir.

Previsível. Afinal, eu não sei brincar, nem perder e só você estava se divertindo.





12 de junho de 2022

domingo, junho 12, 2022

Toda história inacabada é eterna



Senti o pesar como uma nuvem negra perseguindo a tempestade. Embora assim fosse, a chuva dos meus olhos caíram com muita delicadeza - há muito tempo não sentia uma tristeza tão bonita. Era saudade banhada com o mais fino dos argumentos, salpicada com pensamentos que variavam entre momentos de lucidez e constatações fatalistas. Desde então, não tenho a quem recorrer além do meu fone de ouvido e algumas lembranças que já começaram a falhar com o tempo.

Não há lugar de sossego para o arrependimento, não há um único fio que o  traga de volta para mim. Usei uma tesoura tão afiada quanto nossa conexão costumava ser. Penso: pelo menos, a vida está seguindo. O que não impede de me sentir triste exatamente por isso. 

Essa sou eu tentando equilibrar o que não tem equilíbrio - ainda sinto muito - misto de intensidade e lamento por não ter a nossa ilusão disponível no meu radar.

Percebi, tarde, que lia minha alma antes de ler minhas intenções, não importava o que eu dizia ao contrário, e por isso eu sei que escutou o que eu não precisei dizer. Mas não entendeu. E eu entendo.
Era cedo, mas há tempos ando atrasada. Eu não tinha como esperar o ajuste dos ponteiros. Nestes casos, será cedo sempre e é isso que me consola. Mas é inegável o cheiro de eternidade que nossas almas simulavam enquanto o tempo te roubava da minha presença. 

Para mim, a eternidade é sempre pouco, eu sempre desejo ir além.

Embora isso tudo pareça raro, eu sinto muito que só possa sentir assim - longe. 
Embora longe, eu sinto muito perto - ainda. E será assim por um bom tempo. 

Toda história inacabada é eterna. 
É por isso que eu jamais disse adeus.
Mas não vou voltar.







6 de outubro de 2021

quarta-feira, outubro 06, 2021

Em defesa dos intensos (não aos dramáticos)




É muito comum as pessoas confundirem pessoas intensas com pessoas dramáticas, mas essa injustiça eu não vou cometer: o dramático cansa as pessoas, os intensos se cansam. O dramático interpreta que sente muito, o intenso sente e transborda e vaza por todos os poros - é sobre isso que pensei outro dia enquanto tomava banho e rebatia mentalmente alguma situação que não fazia o menor sentido relacionar. 


Queria defender os intensos mas não há defesa, eles estão condenados às piores formas de existir que o ser humano poderia ter - aquelas que precisam sentir muito e tudo e sempre para só então respirar e deitar a cabeça em paz no travesseiro. Não é que eles podem não ser assim, não há saída para o que se é, ou você é ou você simplesmente rasteja pela vida como um zumbi. 


Não dizer o que sente, esconder o jogo e tentar conter os gritos de alegria que a alma dá com qualquer mínima reciprocidade infantil é para quem consegue fazer drama, não para os intensos. Não há cálculo, não há atalho, só há vontade, energia e aquela falsa sensação de poder que a explosão do intenso promete gerar antes de cair em desgraça com as consequências das suas não-escolhas. 


É por isso que o intenso joga limpo, porque ele precisa que o território exista para caber sua explosão, e se depois dela, não houver mais território, nem som algum, só então, eles deixam para lá. 


Mas é um deixa pra lá depois de ter dito tudo que queria, de ter dado todas as coordenadas de onde a bomba vai cair. Depois de instalar o caos, só depois disso, quando já não existir nada além de pedaços e poeira ele vai dizer.


Junta os cacos de si mesmo e vai colar sozinho, não há depois, promete que nunca mais vai se envolver em nada assim tão profundamente. Neste momento ele começa a se regenerar, parece que liga um autolimpante emocional e vai saindo do planetinha sem forma cheio de respostas que não precisava.


Vai rir depois porque não vai encontrar nexo no tamanho do investimento feito para com o estrago colhido é  que não tem a ver com ninguém mesmo, é uma necessidade básica da existência deles.

Mas quer saber? Deixa para lá. 




 

25 de setembro de 2021

sábado, setembro 25, 2021

Primavera das Lagartas




Acordar com raiva é melhor que acordar frustrada - dizia a si mesma para tentar entender essa roupa que sua alma vestiu na última semana - é que despir esperanças vazias e colocar os pés no chão parecia uma longa sinfonia de uma nota dó, mas funcionou.

Encontrar o pote de ouro na mediocridade cotidiana é uma arte que nunca dominou, sempre precisou de mais, aquele mais que não existe no mundo real e não ter para onde escapar quando seu palácio de memórias não faz mais sentido é assustador. 


Não queria mais intercalar respirações fugindo da luz, não queria mais o despertar da vontade, só queria encontrar a si mesma numa varandinha cheia de ar nos pulmões e satisfação na ponta dos dedos. 



Cansou de pegar em facas para defender sozinha uma plantação de cinzas. Decidiu plantar em si tudo que mataria para regar no outro. É aquela coisa de terra fértil, só há veneno por aí  e não há outro lugar mais fértil que sua própria existência disposta a ser mais que uma alma perdida em paixões de mentirinha e enganos mal elaborados. 


Deu ódio, mas aquele ódio que te faz afastar o que te faz mal, sabe? Deu ódio de ser vulnerável, deu ódio de estar disposta a se ferir para curar o desejo, deu ódio de facilitar o caminho de quem não tem pés para sua estrada, deu ódio, deu em todas as flores, ódio de não cortar antes. 


É aquele sentir que desperta a semente da lucidez, que faz colher satisfação e benignidade de espelho. Quando estiver pronta, vai plantar em si, de novo, agora só o que colheu da poda, da distância e do jejum de olhos - que venha a primavera das lagartas. 




15 de setembro de 2021

quarta-feira, setembro 15, 2021

Mergulhar no raso também é necessário



Tem a profundidade de uma xícara, é o que eu digo sempre de quem não vai fundo nas coisas. Mas nem tudo é para ser mergulho, às vezes é só para molhar a pontinha dos dedos e sentir aquele ventinho de verão no final da tarde, é tão gostoso - não precisa ter sentido além disso. Estar onde se está, e não buscar nada além da presença presente, é bonito, é leve.  

Mas nem sempre é simples assim, alguém inventou que tudo precisa ter sentido e significado para além do que estamos vivendo, e talvez, essa seja nossa maldição. É que a linguagem permite que a gente deseje o que não se pode pegar, pior, a linguagem permite que a gente tenha fome de significados abstratos, por exemplo, desejamos o amor do outro, desejamos o desejo do outro, mas o que é isso afinal se não uma imbecilidade que afoga nossa mente em tristeza e agonia?

A gente quer tomar o café pela manhã, ser o café, a xícara, e o pó que sobrou na borra da garrafa. Quando isso não acontece, a água passa da fervura e seca antes mesmo de chegar na garrafa. Era só um cafezinho mas parecia uma ópera angustiante - é isso que o desejo faz com coisas tão simples, vira vício, dá abstinência. 

Quando não tem mais motivo para ferver a água, vai querer criar um. É aí que vai jogar a xícara no chão para ela se quebrar em mil pedaços porque assim talvez, algum dia, ela se junte novamente. Não importa o que ela era, pegou a agonia pelo pescoço e a afogou no raso, sem dar nova chance para o tempo de fervura da água com o pó, preparar aquele cheirinho de fim de tarde. Deixa para lá, é melhor se afogar no raso que boiar no vazio. 






24 de agosto de 2021

terça-feira, agosto 24, 2021

Bad Trip



(Aqui vai um monte de metáfora porque não posso perder a chance da riqueza que ela finge agregar nesse texto)

São 14:55 de uma terça-feira e ela já está na segunda taça de vinho, curiosamente, teve um lampejo de lucidez e tomou um remedinho para não ter tanto efeito colateral desse momento bizarro que subitamente se permitiu ter. 


Colocou Duda para tocar, e está sentindo tanto! É como se tivesse aberto a caixa preta de um avião antes dele colidir num muro de concreto. É muito ruim não conseguir ser esse muro. Infelizmente descobriu que é o avião e a caixa preta está prestes a desgraçar sua autoimagem. Mas tudo bem, a alienação vai conseguir transformar tudo que sente em nada - a viagem dessa bad é o que vai salvar seu voo imbecil em um laguinho raso como a sola de uma havaiana velha - puta que pariu que sentença foi essa? 


Do absoluto nada ela se pergunta: isso tudo é culpa dele? E a consciência (maldita) logo responde: claro que não. É culpa dela mesma, ela não consegue manter o controle de nada, sua cabeça é fudida demais para não inventar qualquer coisa insignificante que tire ela da realidade, já não suportava mais conviver com tanta solidez e existencialismo. Estava sedenta por uma ilusão que valesse cada gota do seu Cabernet.


Chegou a conclusão que, o vazio que lhe preenche desde o momento que se percebeu existente (ela tinha 5 anos) é muito pior que qualquer brincadeira adolescente gritando "você já tem 30 caralho".


Entendeu cada uma das pessoas que por um momento assim desistiu de tudo, e partiu para a memória eterna das outras pessoas que nunca se lembraram o suficiente para perguntar se elas queriam companhia no precipício. Ah, como o ser humano é patético e egoísta. Mas ela não achava que era assim, lutava contra o altruísmo exacerbado que veio instalado de fábrica: todo egoísmo à mostra era só mentira das mais deslavadas. 


Enfim, mais uma tolinha enganada por sua própria vaidade, ou uma boba qualquer que poderia ser enganada por qualquer psicopata que quisesse lhe tirar tudo. Mas ela não teve essa sorte. Teve que lidar com tudo no real sem ter a quem culpar - e você sabe o que isso significa né? 


A viagem ainda está longe de terminar. Aperte os cintos. E sinta muito por ela só não sinta pena, você não sabe o quanto ela é mentirosa quando está vulnerável e carente por atenção. Mas não finge que não sabe do que se trata, ela sabe que você sabe. Nós sabemos! 


(É aqui que você desce mas continua viajando)




14 de novembro de 2020

sábado, novembro 14, 2020

Potências & Problemas





Ter múltiplas potencialidades parece ser mais um erro que uma solução criativa para problemas que não teríamos: é que embora a gente saiba que o presente é uma malha tecida por diversidade, somos filhas da lógica industrial linear, pseudo-segura, homogênea e sem espaço para novidades falhas. E quem garante acerto sem tentativa e erro? 


E por falar em falhas, já notou como estamos o tempo todo nos contradizendo? É que a gente sabe de muita coisa mas faz aquilo que garante o sono e quando se arrisca perde a referência completamente. Em alguns casos, essa dissonância gera colapso paralisando por completo nossa vontade de encontrar um caminho no meio dessa inominável condição de ser: é que a gente precisa dar nome às coisas (de sentimentos à situações). 


Mas como dar nome há algo que está existindo pela primeira vez dentro de você? Algo que você nem sabe exatamente o que é? Seus pais não sentiam isso, seus avós muito menos, talvez seus amigos, mas isso não é algo que a gente joga no papo toda hora, ainda mais quando você acha que todo mundo tá muito seguro vivendo suas escolhas acertadas menos a gente (pelo menos é o que parece ali no Instagram né?)


Querem nos massificar, sempre quiseram. Querem nos convencer de um monte de coisa que ajuda a aniquilar nossas individualidades, mas eu suspeito que o melhor é deixar a espada entrar e cortar em pedacinhos cada uma das nossas possibilidades, porque cada caquinho delas poderá ter asas para fugir de nós e povoar o mundo à força.


Como organizá-las? Essa não é a pergunta, talvez a pergunta certa é por que queremos tanto organizá-las? Fazemos de tudo para derrubar o espírito que paira sobre as águas, queremos que ele entre na lógica e diga haja luz antes do 7° dia, mas não é assim que funciona com o caos, ele não tem relógio.


Talvez a habilidade essencial do presente seja suportar as horas antes de acordar. Nem tudo vai suportar raiar o dia, algumas coisas ficarão pela madrugada mesmo. É melhor deixar a porta aberta e convidar a ausência para conversar, ela tem muita coisa para nos dizer. Os loucos sempre estão à frente de novos dias.




tema de 8 a 14.11: espadas


O naipe de espadas diz sobre algo que acontece no plano mental: a racionalidade, a ideologia, a verdade. Mas também fala sobre os problemas que só existem na nossa cabeça, que tanto nos pressionam e criam grandes conflitos internos. Que tal falarmos mais sobre isso? Publique no seu blog e participe da blogagem coletiva: #estacaoblogagem.


7 de novembro de 2020

sábado, novembro 07, 2020

O dia no planeta pandemia



Era cedo. Bem cedo, aquela hora sobre a qual se escrevem livros e chamam de milagre, sabe?
Se com o canto da vista eu queria aproveitar o dia com antecedência, com o avesso da alma eu queria dormir infinito.

Não bastasse essa lida doída entre eu e minha sombra, a agenda gritava bom dia. Gritava mesmo, a Alexia me dizendo a hora e simulando o som de chuva é a companhia mais legítima que eu consegui me dar nos últimos meses.

Decidi levantar e enfrentar a cachoeira sem graça daquele cômodo habitual, mas que já foi muito especial em tempos normais. Nada é mais incomum que reinventar a disputa por sentir as gotas tímidas do chuveiro velho.

Ritual feito, agora era a hora certa de sentar na cadeira do escritório e começar o dia com fé direito e muita leveza. Mas a alma disse não. Estava tudo no lugar certo, corpo, mente, projeto, perspectiva, mas estava faltando a ausência que move, faltava ela. Ou talvez, quem sabe, quisesse apenas cumprir um tipo de papel biológico de existir em repouso. Dizem que economizar energia é sinal de inteligência evolutiva quando se tem tão pouco em estoque.

Fato é que esse corpo deitou e não me obedeceu mais. Era inútil lutar contra. A gente tá cansado né? É como se estivéssemos ateus de esperança e não há sono que renove esse despertar mágico. Acordei 4 horas depois, totalmente frustrada por estar atrasada para meu futuro, e por me estar presa ao meu corpo envelhecido pela juventude adiada.

Foi nesse sopro de inviabilidade que começou o dia, só a espera pela organização do caos poderia permanecer, o resto era aquela já conhecida sobra de ausência, que estava sumida, mas achou espaço logo em dia de feira. Fui tentar consultar minha sorte, mas o plano venceu, mudei de novo, e retirei do investimento o que já não fazia sentido. Vou ter que esperar o plano gratuito. Será que agora eu consigo? Deixei pra lá.

Eu queria que esse dia tivesse uma reviravolta digna mas o melhor dele foi agora, finalizando esse texto, com um pouco de incômodo por torná-lo público, mas ao mesmo tempo, pensando que é necessário sustentar nossas ausências, possibilidades e estranhezas.

Daqui vinte minutos a folha branca me convidará para mais uma dança. Que a inquietude tire uma soneca e me deixe acordar de novo, só que agora por dentro.

 



 

 

8 de junho de 2018

sexta-feira, junho 08, 2018

A morte do desejo



Morreu e deixou uma mensagem para ela, no meio das coisas achadas, numa folha de caderno. Ela sofreu, se sentiu culpada, achava que deveria ter dito coisas a mais, coisas que supostamente não disse. Chora, começa a investigar como foi que tudo aconteceu, pergunta amigos, vai atrás de pistas. Acorda. Cai em si, lembra que ela e a tal pessoa não se falam mais como antes. Se sente estranha, pega o celular e ameaça fazer o que qualquer pessoa faria, falar com a pessoa, perguntar como está, tentar sondar sobre sua vida, invadir o silêncio, a distância e o abismo de coisas só existiram na sua imaginação. Fingiu por um segundo que não entendeu o que aquilo significava. 

Assim ela fez o que nem todo mundo faria, respirou antes de fazer qualquer coisa, fechou o coração, levantou e lavou o rosto, fez uma viagem à realidade, trouxe de volta os fatos, abraçou a verdade e pediu que ela não te virasse o rosto, nem falhasse com ela. 

Mas a verdade veio junto com o abrir dos olhos naquela manhã, a morte do que nunca existiu foi um grito maior do que qualquer tentativa de contar uma bela história que não acha fundamento. A verdade falou com aquela dor de reviver memórias e disse o que ela custou a admitir lá atrás quando tudo aconteceu. 

Morreu. Morreu mesmo, há muito tempo, a pessoa, a história que ela contou, o sentimento que criou e a razão de existir desse espaço que ainda lhe habitava. Essa era a oportunidade do enterro. Era o velório que já foi feito há muito tempo, mas por alguma razão, o inconsciente não deixava perceber. Hoje ele preparou a cerimônia e ela compareceu.

Sempre podemos ressuscitar os defuntos ou enterrá-los de vez. Hoje a verdade pediu por favor deixe os mortos cuidarem dos mortos, cuide da vida que te habita no presente. Deixe o passado gritar sozinho, você já não está lá. Ela ouviu e mais uma vez acordou, agora por dentro.



30 de janeiro de 2018

terça-feira, janeiro 30, 2018

Gente de verdade


Gente de verdade sente medo, vira a noite pensando num jeito de mudar de vida, sente desespero.
Gente de verdade não tem resposta feita pra tudo. Não sabe o que fazer quando todos os problemas resolvem aparecer juntos. Tenta mais uma vez, outra, e de novo, apesar de todos os pesares, apesar da exaustão dos milhares de dias claustrofóbicos. 

Gente de verdade perde a mão da poesia, tem cegueira momentânea, esquece dos dias de brilho e se apega ao choro sem fio na madrugada. 

Gente de verdade perde a esperança, chega à conclusão que sobra mais falta que sentido, cai no infinito instantâneo difícil de sair, uma solidão insistente, a de existir consciente à realidade, nua e crua. Você está em alto mar, se não remar, vai afundar.

Gente de verdade cansa. Cansa de tentar dar certo num sistema feito pra você errar. Quem conseguiu ter fôlego a mais, chega mais calmo. Mas essa gente da lida, tá lutando para respirar.

Luta. Gente de verdade luta. Contra si mesmo, contra as circunstâncias, contra a maré, contra tudo. Gente de verdade se supera. E essa é a única coisa que essa gente faz diariamente, sem cansar.


Si Caetano

12 de janeiro de 2018

sexta-feira, janeiro 12, 2018

Disseram que todos estão mal





Todo mundo está mal. É isso mesmo que você pensa?
Que não tem saída, que está tudo um caos?
Que o mundo não tem jeito, que a vida não tem sentido?
Que sua vida é uma mentira, que ninguém sabe o que está fazendo?
Que estamos sozinhos, que o amanhã não precisa vir?
Será que você está pensando ou apenas ecoando?

Não quero comparações. Só quero constatar
Se o espiral de tristeza que a alma entra
é alimentada pela visão turva de quem não consegue
enxergar o cinza,  alguém jogou o branco no meu breu.

Tem gente muito bem. Se é que você me entende.
Gente que olha pro céu e sorri,
que sente paz no travesseiro, ao terminar o dia
Tem gente muito bem sim. Que não está fingindo no instagram.
Gente que aprendeu a anotar pequenas conquistas
que sente a água escorrer pelo corpo em euforia.

Não, não tá todo mundo mal. Pelo menos não o tempo todo.
É que a gente tem essa mania, acha que as coisas são inertes
como a nossa teimosia. A vida é cíclica. Não fixa.
E o que isso significa? Cada um com sua empatia.

Minha alma que é feita de nuvem, choveu por dentro
e sem querer, limpou minha visão. Minha consciência
aproveitou o descuido e me disse: As conclusões que ela tira
são baseadas em fatos ou em antipatias?

Sentimos desconfortos sutis e queremos jogar a vida no lixo
como se um grito atravessado fosse suficiente pra concluir:
nada faz sentido. Calma. Calma aí.

O mundo é o que a gente vê por dentro.
Eu vejo meu gato, minha caneca preferida e um pote de açaí.
Foi assim que cheguei ao fundo do poço. Mas, foi assim que saí.

Pede desculpas, fala mais baixo, escolhe melhor as palavras
compra seu petisco favorito, vai se dar prazer um pouco,
descobre o que te faz rir, o que te dá prazer e depois disso tudo
com seu coração descansado, pensa de novo.
Acho que tem gente feliz por aí.  É só um palpite.

Si Caetano
Belo Horizonte

9 de janeiro de 2018

terça-feira, janeiro 09, 2018

Uma carta para ela


Arte: Andreia Salvan Pagnan: "Invisible".

Não vou me apresentar, vou direto ao ponto,
leia isso antes de qualquer decisão:

Não se viole. Nem por você mesma!
É que depois que passar o desejo, você vai acordar sozinha
e terá que ser forte para juntar todos os cacos e tocar a vida
Mas acredite: você não terá forças.
Isso vai te sugar até a última gota.

Ferida, sem ninguém, e com a visão distorcida,
você vai tentar se colar inteira. Deprimida.
Vai conseguir, aos poucos. Mas o tempo não vai
te esperar querida, e essa dor dilacerará sua alma.

Não há remédio na vida que apague memórias.
Isso vai mudar você. Você será moída.
Seu pó se misturará ao vento da ausência.
Suas peças não voltarão a ser inteiras.
Serão substituídas.

Remendos feitos na correria pra suportar os dias.
E por falar em dias, eles vão passar devagar
quando você se lembrar de tudo,
e muito rápido quando você conseguir esquecer.
Será um ciclo impiedoso.

Você ficará tão rígida que não terá paciência
para as coisas mais básicas da vida: como se apresentar
a estranhos, ao iniciar uma carta, por exemplo.

É por isso que te suplico: preste atenção ao que eu
não digo. Você sabe do que estou falando.

Se você me perguntar se não haverá nada de bom nisso,
eu respondo: é claro que haverá. No final você vai
ver o melhor daquilo que viveu e vai começar a escrever
pra não perder o sentido. Mas é só isso que sobra no final.

Depois dos sustos, da solidão, da rejeição, do medo.

Você quer ficar com as sobras?
Espero que você entenda, você que está me lendo.
Acolha essas palavras.

Vai por mim, de sobras eu entendo.

Si Caetano🦋 - 09/01/2018

21 de julho de 2017

sexta-feira, julho 21, 2017

Ensaio da visão







Fechei os olhos para poder enxergar melhor. Aquele som que vinha de dentro queria me levar ao lugar que outrora só consegui ver de longe e mesmo assim, já me fascinava. Senti como se todas as escamas do meu corpo estivessem caindo... foram anos e anos assim. Sentia um pouco de frio por estar exposta, mas a nudez me deixava estranhamente confortável.

Me cobri levemente com os braços. Comecei a lembrar de como e em que momento aquelas escamas surgiram. Senti uma leve falta de ar, meu fôlego falhou. Era como se eu mesma quisesse me dizer algo mas não podia falhar. Não precisava. Aquela respiração já dizia tudo.

De repente comecei perceber que minhas costas estavam formigando, passei as mãos e senti que alguma coisa queria romper minha pele. Gritei, primeiro de susto, depois de dor. Foi insuportável! Eu estava sozinha, acompanhada apenas pela metamorfose, não adianta gritar.

Era meu fim, eu pensava. E era mesmo. Eu morri, e aquela canção embalou minha morte várias e várias vezes. Era um ritual fúnebre para um cadáver cansado, ferido e muito velho. Quando acordei da minha morte, eu tinha asas. É o começo de um novo fim.

Chega de Lagarta.


20 de maio de 2017

sábado, maio 20, 2017

Para não esquecer



Hoje, especialmente hoje, um sentimento aterrorizante me visitou. Parece que eu cai em mim e voltei ao ponto crítico de uma parte da minha alma que custo a exorcizar: aquela parte cruel que me diz a verdade enquanto eu tento me esconder, me protegendo com ilusões idiotas.  "Você nunca foi amada, não se esqueça disso." Ela me disse. Rebati veementemente, mas entendi. Eu me senti amada e me sinto amada muitas vezes, mas ser amada é algo tão sublime que acho que jamais serei mesmo, nem por mim mesma. 

O que estava ouvindo não vinha só da minha alma, vinha da voz que reprisava tudo o que eu ouvi a minha vida inteira. E não era novidade, novidade seria eu não ser aquela pessoa que vai desculpar quando as pessoas decidem ser babacas. O mais aterrorizante que, segundo elas, pela primeira vez. Eu já fui a primeira vez de muita gente que se descobriu babaca comigo. "Não se esqueça disso". Ouvi e murchei. Naquele momento o gosto de fel tomou conta da minha boca e o sentimento de que "tentam sempre te fazer de lixo para descartar suas merdas" veio forte. Tinha muito tempo que algo não roubava minha alegria. Desde a morte do meu pai não me sentia assim. pensei: vou desabar de novo.

Mas foi diferente. Não me senti lixo. Me senti triste, triste por perder mais um. Mais um ser humano que não fez nada na história da minha vida a não ser me fazer não esquecer que eu não posso esperar nada além do obvio das pessoas. E o obvio há anos, tem sido mais cruel que a verdade.  Se eu parar para pensar mesmo, dá um pavor viver. Mas, não há saída. E eu não quero sair da vida sem que ela me diga exatamente que chegou ao fim. Longe disso. Quero viver, viver bem. Bem longe de viver um filme de baixo orçamento que reprisa semanalmente na sessão da tarde. 

Fiz uma listinha: 

- Não se esqueça que o outro nunca amará você como você merece ser amado. 
- Não se esqueça que você não é lixo, ou descarte de alguém.
- Não se esqueça que você não pode confiar em ninguém, nem em você, 100%. 
- Não se esqueça que se você não confiar um pouco nas pessoas, os relacionamentos são inviáveis.
- Não se esqueça que você não tem culpa por não ser a escolha de alguém. 
- Não se esqueça que por mais que você tenha amigos, eles são pessoas, e sendo pessoas, pensaram no seu umbigo primeiro. 
- Não se esqueça que existem exceções. 
- Não se esqueça de não esquecer quando as pessoas pisam na bola com você. Não se lembre para remoer, se lembre para não cair de novo na mesma cilada. 
- Não se esqueça de lembrar das exceções. Prefira as exceções. 
- Não se esqueça que existe muita coisa boa pra viver, e muitas delas não envolvem outras pessoas. Apenas você e você. 
-Não se esqueça de fazer tudo o que você ama fazer.
- Não se esqueça de sempre reconstruir seus cacos. 
-Não se esqueça que você também é o babaca para alguém. 
- Não se esqueça que no final, tudo é uma grande invenção humana. 
- Não se esqueça que não tem problema não saber para onde ir.
- Não se esqueça que quem te magoa é só um ser humano sem noção, que precisará de ajuda no futuro. 
- Não se esqueça de pedir perdão. 
- Não se esqueça de perdoar. 
- Não se esqueça de tentar. Mas não se esqueça de desistir quando chega a hora. 
- Não se esqueça que o amor é só uma palavra. 
- Não se esqueça que no final, a vida é o que você quiser fazer dela. 
- Não se esqueça de escrever sobre isso. 


Assim fiz. E assim farei. 
Enterrado. Já esqueci.

13 de setembro de 2016

terça-feira, setembro 13, 2016

Só sexo




Almas desnudas, na carne viva do desejo, das expectativas, com um mundo inteiro a ser transpassado por outro universo que nessa lógica tenta negar o impacto. Como descobrir um novo planeta em colapso e não sentir nada além disso? Quem souber essa resposta pode jogar na loteria. 

Vamos contando com os desencontros até perder a soma, parece que queremos mesmo é dividir: alguns a alma, outros a razão, a cama, o corpo, talvez o café, talvez tudo. Às vezes nada. Mas ninguém pode negar, estamos presos à lógica dos múltiplos prazeres e quando se trata de gozo, não se costuma pensar com a matemática do pós ressaca moral, e não apenas isso, parece que não se fazem mais humanos como antigamente. Ainda bem. 

Nessa dimensão nunca fechamos a conta, quando se tem o X o valor de Y é indecifrável, quando se acha os dois a conta zera, mas não era a resposta certa do problema inicial. Mas existem outras saídas, e vias de regra elas estão nas entradas erógenas dos corpos que embora se desejem com intimidade são meros desconhecidos íntimos. Só sexo é sexo só?

Mas responder a isso pode ser tão ruim quanto aquilo que a moral nos ensinou. Mas quem quer aprender a engolir a realidade? Ninguém pensa ao trocar suas secreções, aliás até pensa, mas não deveria. Falta achar o denominador comum, está sobrando radical. 

De que falsas perguntas partem as nossas verdadeiras respostas? Estamos vazios de curiosidade, então para que mais perguntas? Talvez não queiramos mais perguntar por medo de ter que responder. 

Eu sempre acho que a resposta na verdade, nunca foi só, mas no dia seguinte podemos deixar ser.  Depende da questão inicial, mas sobretudo, depende da companhia. 


18 de agosto de 2016

quinta-feira, agosto 18, 2016

Beco sem saída






Não aguento não dizer, mas não suporto ser ignorada
não suporto minha dor, mas não aguento ser rasa.
Não aguento a vida que tenho, mas não suporto viver de mentira
não suporto a crueldade da verdade, mas não aguento te ouvir.
Não aguento a humanidade, mas não suporto extermínio
não suporto frieza, mas não aguento quem faz drama.
não suporto espírito indomável, mas não aguento ter que prender
Não suporto ficar, mas não aguento a ideia de ir embora
Não aguento o país que vivo, mas não suporto quem fala mal dele
Não suporto sentir frio, mas não aguento calor
Não aguento viver sem amor, mas não suporto ensinar a amar
não suporto injustiça, mas não aguento gritos
(...)
não aguento ter que falar o que digo 
mas não suporto não ter o que dizer


Si Caetano

18 de julho de 2016

segunda-feira, julho 18, 2016

Quando ele escreve, quando ela escreve.



Quando ele escreve coisas sensuais: "deve ter borogodó"
Quando ela escreve coisas sensuais: "deve ser puta".

Quando ele escreve sobre relacionamentos: "sábio, inteligente, maduro".
Quando ela escreve: "acha que é psicóloga, quer vender autoajuda, é muito #mimimi".

Quando ele escreve sobre seus relacionamentos: "sensível, romântico, homem ideal, perfeito".
Quando ela escreve sobre seus relacionamentos: "carente, pegajosa, tá precisando de rola, chata, não superou ainda, se expõe demais, tadinha".

Quando ele escreve sobre ela: "conhecedor da alma feminina, gênio, sabe das coisas, vidente"
Quando ela escreve sobre seus sentimentos, sobre como ela realmente funciona: "não é bem assim moça, você não sabe como todas as mulheres funcionam, você é feminista?, mal amada, está precisando de rola".

Quando homem escreve, ele é escritor, incontestável.
Quando a mulher escreve, tem que provar que sabe e mesmo assim, há controvérsias.

Quando ela escreve, embora saiba o que quer dizer, afinal, verdadeiramente sabe sobre ela mesma, e talvez, saiba mais sobre elas do que eles: não vale! 
Afinal, ela é só uma mulher.

-Só? Tem certeza?




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