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Almas desnudas, na carne viva do desejo, das expectativas, com um mundo inteiro a ser transpassado por outro universo que nessa lógica tenta negar o impacto. Como descobrir um novo planeta em colapso e não sentir nada além disso? Quem souber essa resposta pode jogar na loteria. 

Vamos contando com os desencontros até perder a soma, parece que queremos mesmo é dividir: alguns a alma, outros a razão, a cama, o corpo, talvez o café, talvez tudo. Às vezes nada. Mas ninguém pode negar, estamos presos à lógica dos múltiplos prazeres e quando se trata de gozo, não se costuma pensar com a matemática do pós ressaca moral, e não apenas isso, parece que não se fazem mais humanos como antigamente. Ainda bem. 

Nessa dimensão nunca fechamos a conta, quando se tem o X o valor de Y é indecifrável, quando se acha os dois a conta zera, mas não era a resposta certa do problema inicial. Mas existem outras saídas, e vias de regra elas estão nas entradas erógenas dos corpos que embora se desejem com intimidade são meros desconhecidos íntimos. Só sexo é sexo só?

Mas responder a isso pode ser tão ruim quanto aquilo que a moral nos ensinou. Mas quem quer aprender a engolir a realidade? Ninguém pensa ao trocar suas secreções, aliás até pensa, mas não deveria. Falta achar o denominador comum, está sobrando radical. 

De que falsas perguntas partem as nossas verdadeiras respostas? Estamos vazios de curiosidade, então para que mais perguntas? Talvez não queiramos mais perguntar por medo de ter que responder. 

Eu sempre acho que a resposta na verdade, nunca foi só, mas no dia seguinte podemos deixar ser.  Depende da questão inicial, mas sobretudo, depende da companhia. 





Imagem: reprodução google

Não aguento não dizer, mas não suporto ser ignorada
não suporto minha dor, mas não aguento ser rasa.
Não aguento a vida que tenho, mas não suporto viver de mentira
não suporto a crueldade da verdade, mas não aguento te ouvir.
Não aguento a humanidade, mas não suporto extermínio
não suporto teatro, mas não aguento não fazer drama.
não suporto espírito indomável, mas não aguento ter que prender
Não suporto ficar, mas não aguento a ideia de ir embora
Não aguento o país que vivo, mas não suporto quem fala mal dele
Não suporto sentir frio, mas não aguento calor
Não aguento viver sem amor, mas não suporto ensinar a amar
não suporto injustiça, mas não aguento gritos
(...)
não aguento ter que falar o que digo 
mas não suporto não ter o que dizer


Si Caetano


Quando um homem escreve coisas sensuais: "deve ter borogodó"
Quando ela escreve coisas sensuais: "deve ser puta".

Quando homem escreve sobre relacionamentos: "sábio, inteligente, maduro"
Quando ela escreve: " ela acha que é psicóloga, quer vender autoajuda, é muito #mimimi".

Quando homem escreve sobre seus relacionamentos: "sensível, romântico, homem ideal, perfeito"
Quando ela escreve sobre seus relacionamentos: "carente, pegajosa, tá precisando de rola, chata, não superou ainda, se expõe demais, tadinha".

Quando homem escreve sobre ela: "nossa, conhecedor da alma feminina, gênio, ele sabe das coisas, vidente"
Quando ela escreve sobre seus sentimentos, sobre como ela realmente funciona, suas inquietações: "não é bem assim moça, você não sabe como todas as mulheres funcionam, você é feminista?, hummm, sei.

Quando homem escreve, ele é escritor incontestável .
Quando ela escreve, ela tem que provar que sabe e mesmo assim, há controvérsias.

Quando ela escreve, ela embora saiba o que quer dizer, ela verdadeiramente sabe sobre ela, mas não vale.
Afinal, ela é só uma mulher.

-Só? Tem certeza?


Si Caetano




Era uma tristeza tão familiar que entrou pela porta, colocou o pé no sofá, abriu a geladeira e pediu para abaixar o volume do pensamento. Eu disse olá, mas queria mesmo era mandá-la embora, fingir que não conhecia, virar a cara, ficar indiferente. Não deu. Sua presença era convidativa, era inverno em mim, sentia frio, busquei um café, me sentei com ela e fomos conversar. 
Não se pode negar velhas amizades, por mais difíceis que suas presenças sejam, de certa forma, nos fazem bem. Mas a tristeza é daquelas amigas sazonais que não podem ficar muito tempo se não ao invés de duas, viramos uma só. Eu entendi isso com muito custo, já cheguei a pensar que ela era eu, que eu era ela, para nos dividir e estabelecer as fronteiras declarei guerra, e assim foi, descobri que ela tinha nome próprio e não era o meu. Ela não tem consciência disso não, se eu não gritasse ela ficaria para sempre assim, mesclada em mim.  

O silêncio é o cálice da tristeza, e foi assim que conversamos. Servi meu silêncio com doses de café. Meus pensamentos ao contrário da minha voz, não se calaram um segundo. 

- Não faz sentido - era a única sentença que eu conseguia pronunciar. 

Ela em silêncio me olhava nos olhos, com aquele olhar marejado que denuncia empatia como quem responde por telepatia. Eu ouvi com meu coração cinza: - eu sei.

Passaram uns minutos e eu ainda tinha uma sutil repulsa à sua presença, não queria me render assim tão facilmente, sabe quando a gente se cansa de viver os mesmos enredos? Ela significava uma história que eu já conheço o final. Esperei um pouco, e num impulso ( novidade para mim) eu disse:

- Vou escrever sobre você!
  (Ela se assustou e eu também)

- Vou falar da sua visita, vou escrever como me sinto quando você chega, vou dizer o que você significa para mim, vou falar que estou com você agora aqui em casa, vou falar com as pessoas sobre você. 

Ela se emocionou. Eu levantei, liguei meu PC e comecei a escrever. Quando percebi ela havia ido embora sem se despedir, até agora não sei se ela gostou ou não, talvez eu nunca vá saber. 
Ela vai voltar, eu sei. Enquanto isso, eu quero terminar esse texto para que ela saiba que não a odeio, pelo contrário, mas não posso passar o tempo todo com ela, nossa relação é boa mas preciso conhecer outros sentimos por mais tempo, preciso viver outras experiências com a alegria, com a alienação, com o encantamento, eu preciso de ter um pouco mais de paz, preciso ter espaço para a plenitude do amor, preciso sorrir, ( eu adoro gargalhar). Quero redescobrir o sentido ou criar um. Não quero que os obstáculos sejam mais difíceis que eu, eu não vou facilitar para ninguém, ninguém facilitou nada para mim. Resistência eu já tenho, só preciso resistir um pouco mais, e mais. Vou comprar uma caixa de lápis de cor, vou ver vídeos de catiorros, vou fazer memes, vou lembrar das coisas que deram certo, muitas coisas deram certo também... Enfim. 
Deixei um recado para ela, vê se ficou bom:

Miga, gostei da sua visita. 
Mas não posso viver só para gente. 
Preciso de mais interações.
Espero que entenda.
 Bjo

Si Caetano 

 

***Leia solteiro aqui no sentido unissex okay? 



Meu caro amigo solteiro, o dia de hoje para muitos de vocês pode não ser tão fácil quanto qualquer outro dia, nós sabemos o quanto a sociedade impõe sobre nossas costas estigmas, sua forma de conceber a vida, sem nos perguntar, sem saber o que temos a dizer. Ser solteiro neste contexto é ser alvo constante de tentativas dos amigos, dos parentes, dos amigos dos amigos, para arranjar alguém que te salve desse estado considerado lamentável, como se estar solteiro fosse a representação de uma dor terrível de uma existência fracassada. Resultado disso? Você se sente assim. 

Você pode estar bem consigo mesmo, pode estar confiante, focado nos seus projetos pessoais, com grandes perspectivas inclusive na área sentimental, mas como ainda está solteiro, e como ainda não se tocou que as vozes externas acabam abafando sua voz interior, se sente triste, acaba perdendo a graça para algumas coisas, principalmente hoje, o fatídico dia 12/06. Muitos acabam fazendo aquele discurso de ódio contra as demonstrações de afeto em público, outros escrevem coisas como se todos os namorados do mundo fossem traídos, em um tom de vingança, como se estivessem revidando aquela pressão social que todos sentimos. 

Estar com alguém é maravilhoso, encontrar alguém que nos dê a chance de viver uma história de amor é realmente privilégio. E são poucos os casais que realmente estão juntos por esse motivo, alguns estão juntos apenas para ter com quem passar o dia dos namorados, é verdade. Mas não se preocupe com a vida alheia. Olhe para você. Invista esse tempo de solteirice para ser a pessoa que você gostaria de apresentar para seus filhos daqui uns anos, ou para você mesmo no espelho. Não corra para achar alguém que caiba nos seus projetos, faça seus projetos, construa seu caminho, e então quando começar a caminhar, certamente encontrará pessoas por ele, e quem sabe não é por aí que vai rolar uma grande história? Se você quer viver um amor invista tempo em conhecer pessoas. Não force presenças, mas não espere demais. Encontre o equilíbrio. Se prepare, seja sua melhor companhia. 

Aprenda com a solidão.  Não se sinta ofendido  por não estar com alguém legal, infelizmente a vida é muito mais complexa do que o imaginário popular imagina. Relacionamento é mais que um dia de presentes, perfumes e fotos. Se você não está preparado para encarar de frente todos os dolorosos caminhos de uma história a dois, o melhor que você pode fazer é abraçar sua solidão com respeito e honra a si mesmo. Não prenda ninguém ao seu lado, se você não quer voar. 
Voe junto. Voe separado, mas não impeça ninguém de voar.  

Que você seja forte, que você supere seus obstáculos, e que o amor te encontre pelo caminho. E que você permita ser encontrado, claro, se assim quiser.  Se não quiser, que seja acima de tudo feliz com sua escolha. E para finalizar, fique bem com sua companhia. Aproveite este momento porque até ele passará. Não há nada de errado em estar sozinho, e há tudo de errado em estar num relacionamento para dar satisfação a sociedade.  Muitos tem o namorado(a) ,tem o dia para comemorar, tem o presente e não tem o amor. O que você prefere?






A vida dela nunca mais foi a mesma desde que percebeu que poderia dar asas aos seus desejos sem pensar no que isso te causaria, embora soubesse, ela tinha molejo, ela tinha ginga de quem gosta de caminhar em abismos para recuperar o valor do chão firme. Gabriela era dessas pessoas com cheiro de vinho e alegria de criança, caçadora disfarçada de isca, traçava seu caminho com toda força de quem sabe andar sozinha, mas, atraía presenças como alguém que não sabe ser só.

Se fez companhia por questão de sobrevivência, houve um tempo em que ela se manteve enclausurada para se fortalecer, foram tempos difíceis e necessários. Mas quando chegou a hora, ela decidiu sair, saiu de si. Foi dar uma volta no mundo. 
Gabi aprendeu a se proteger de tudo, menos de si. Numa volta incerta, ela se traiu, ela vive colecionando traições consigo mesma. 

Seu faro sentiu  o cheiro da presa, seu olhar trazia fogo de quem quer ser queimado, de quem não poupa vida para depois, não era uma presa qualquer. Era Ele, seu problema desnecessário mas extremamente válido. Ela não sabia seu nome, não podia corresponder, não assim. Mas de certa forma, ela já tinha dado não apenas sim, mas apostado sua alma e sua sanidade em silêncio, no olhar, observando gestos, falas e detalhes, ela sabe descrever cada detalhe, mas não vai admitir, não agora.

Naquele dia ela saiu sem grandes perspectivas, só queria aprender um pouco mais da vida e sua maior pretensão era ouvir as pessoas, ela gosta de perceber o que as pessoas dizem enquanto se sentem seguras, mas Ele não disse uma palavra e aquilo gritou muito forte dentro dela. Durante aquele  breve tempo, Gabriela já tinha analisado tanto aqueles cabelos negros com jeito de quem acabou de descer na rodoviária da existência que era questão de oportunidade, e se ela não acontecesse espontaneamente, ela criaria. Ela era dessas, não espera o acaso, ela é o seu acaso. Não tem a quem culpar. Se der certo é culpa dela, se der errado ela sabe, sempre soube.

Chegou a hora, ela se levantou e aproximou. Todos estavam de pé, havia uma movimentação em torno da porta de saída.

- Oi, tudo bem? 
- Tudo. E você? Gostou do lugar?
(Ela não precisou de muito esforço)
- Sim, adorei. Gostei de tudo, parece que voltarei mais vezes. E você?
- Também, não conhecia nada mas é como se conhecesse. 
- Entendo, bom, estou indo, você tem como ir embora? 
- Tenho, mas preferiria não ter se você for me oferecer uma carona. 
- Risos. Quer carona? 
- Claro. 

Ela conseguiu, ela é isca de sua caçada. Nada aconteceu neste momento, mas tudo o que não poderia ter acontecido, aconteceu. Ele não vai ser apenas uma carona que ela ofereceu num dia de semana qualquer, aquele era o começo do fim da paz que ela havia conquistado durante anos.
Mas ela sabia disso e sorriu.






Não existe lado quando o que está em jogo meus amigos, é a preservação da dignidade humana. Pelo menos nisso, todos deveriam concordar. Essa relativização explícita sobre a dignidade do outro, diz muito a nosso respeito. Diz que tipo de sociedade estamos construindo. Assistimos filmes épicos e vemos barbáries como se fossem tão distante. Quanta ilusão, estamos consentindo pequenas barbáries diariamente.
Barbárie é uma sociedade entregue ao instinto animal, que até faz uso da razão mas apenas para relativizar a violência, faz uso de falácias, atacam a procedência moral da vítima, questionam se ela é digna de receber cuidados, espezinham o passado dela para encontrar alguma brecha que caiba dentro do discurso mais fácil que alivia para todo mundo e que conserva o problema para se perpetuar. Mas tem um outro viés também, a barbárie é como um monstro faminto, ela cresce, e ela sobe coberturas, destranca portões de ouro, e ela certamente não poupará ninguém de sua fome.
Pense bem, uma sociedade só evolui quando em conjunto, estabelece regras e leis que favorecem sua preservação e antes de tudo, a dignidade humana. Cuidado com os discursos rápidos, que relativizam o absurdo para tentar esconder o que já sabemos, o ser humano é potencialmente perigoso, para si e para os outros mesmo quando tem apoio, educação, conhecimento, formação, e valores. Precisamos ensinar mais do que isso, precisamos dar valor a vida do outro, esse egocentrismo que nos consome vai desgraçar nossa espécie.
Pensem bastante amigos. Estamos vivendo dias extremamente delicados. E confesso que estou desconhecendo pessoas que achava conhecer, é nos momentos de crises que nos revelamos. 
Mais uma coisa, se uma mulher transou com 1.000 caras durante toda a sua vida, de uma vez, ela tem esse direito sobre seu corpo, se ela consentiu, okay. Mas se ela disse não a um cara, é estupro. O corpo dela é privado, só "entra" quem ela quiser. Não relativizem a barbárie. Não se deixem levar pela indignidade que consome a violência.

Si Caetano - 29/05/2016



Sou estuprada a cada 11 minutos

minha alma e dignidade são manchadas

a cada segundo
não posso mostrar meu rosto
não posso ter gosto
não posso ser livre
não posso andar na rua
não posso ter desejo algum
não posso negar sexo
não posso falar o que sinto
sem que isso pese sobre mim
não recebo justamente pelo que produzo
sou peso morto ainda que viva
sou estepe, mercadoria 
vitrine, objeto de luxo
só valho alguma coisa quando 
me calo. Quando silencio. 
Quando finjo que não incomodo 
quando desisto de mim.


Sou culpada de antemão

vadia, vagabunda, que não sabe 

o seu devido lugar. Que não 
pode usar a razão.
Sou um buraco que só serve
para depositar esperma


Sou a putinha que não se cala

que quer ter direito à fala

que não aceita a supremacia 
de um gênero, de um falo 
que toma tapa na cara 
porque terminou um relacionamento



Enfim, confesso todos os meus 

crimes, eu aceito todos os meus

defeitos.
Meu maior crime, é ser mulher
meu maior pecado é não ter dono.



Pode me crucificar.



Si Caetano 
28/05/2016
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A gente sabe o que tem que ser feito. Se promete lealdade. Coloca no papel, pensa em como fazer, vislumbra os resultados, suspira. Organiza tudo, começa a semana arrumando armários, exclui mensagens velhas na simbologia de poder limpar memórias internas, reflete sobre os desejos, pondera, renega, se segura, não exagera, você sabe o que tem que ser feito. 


Dorme, e no outro dia esquece tudo.

Abre os olhos como se não soubesse a que veio, só lembra do que foi suprimido pelo bom senso, não faz o que tem que ser feito, enrola, mexe no celular, enrola, não abre o caderno para checar as anotações, enrola mais um pouco, deixa crescer a sensação de incomodo, deita, mexe no celular de novo, não come, levanta mais uma vez agora com esperança de começar o dia, já são meio dia, almoça. Cochila, mexe no celular, procura as mensagens antigas, restaura as apagadas, checa mágoas, fuça páginas, enrola. Chegou. São 17:00pm. Nada foi feito. Mas agora você começa a fazer tudo o que deveria ter sido feito às 09:00am. Não dá tempo. Desespero, urgência. Ansiedade domina, vem o descompasso. Qualquer vírgula pode ser mal recebida, instala-se o caos. Tudo isso porque não obedecemos a primeira regra - não se sabote jamais.






Nosso desafio é além de não odiar, ter paciência com as pessoas. 
Paciência quando elas não entendem nosso lado, quando abusam da prerrogativa que tem de expressão ao defender suas verdades. 


Nosso desafio é ainda sim, querer diálogo, sustentar a convivência minimamente sadia, não desanimar de viver e acreditar que conviver embora difícil, é o único jeito de sermos mais humanos. 

Tem hora que dá vontade de recolher todos os nossos rastros, e privar o mundo da nossa companhia, não que ela valha alguma coisa, é por achar que não vale nada mesmo, mas vale. 

Cada um de nós têm algo único a dizer ao mundo, mas quem quer ouvir? Quem quer permitir que o outro fale? 

Nosso desafio é comunicar, com eficiência. Tudo o que temos tido são ruídos, tudo o que precisamos é sintonizar melhor nossa frequência. Eu vou tentar mais uma vez. Tente também.







Finalmente, eu cresci.

Não consigo me reconhecer

nas antigas tolices
que me prendiam ao berço da vida,
o que me faz ninar a mente,
já está no chão
o que me deixa de pé
são os tombos
que ensinaram a levantar.


Finalmente, eu sai do deserto

não sei por quanto tempo

nem sei se estou no rumo certo

não importa, o caminho me faz

estou mais alerta.


Finalmente, eu respiro

o ar da minha identidade

meu RG bate com a foto

que faço de mim mesma

olho no espelho e me vejo

somos amigas - passado e presente.

cortei as daninhas e cultivei

outras sementes

sou fruto dessa colheita

eu por mim mesma

com as podas de mim


Finalmente, esvaziei a mala

aquela cheia de entulho

restos de sentimentos da alma

da paranoia delirante de

viver todos os dias no

mesmo lugar, na mente.


Finalmente, eu sei

sou eu mesma,

sempre fui,

eu não sabia

que cada nuance

era parte integrante

do que eu sou agora

e sempre foi - um leque

de mim.


eu assumo a autoria

Aceite quem puder

quem não puder

não sei... só sei que

nunca mais vou

negar a alegria

de ser quem eu sou

de viver o que eu vivi

de me contentar com

o que ficou.

Eu fiquei, inteira

DESABROCHOU.




Era um sentimento proibido, 
não pela impossibilidade 
mas pela circunstância.
Não era a distância,
não era o tempo cronológico 
Era o relógio da vida
desajustando os fatos
para consumar o fracasso.

Capricho, cisma, pele, olfato? 
não importa, deu o nome de amor.

Então, por ser assim: fruto do inesperado
foi abortado e jaz no solo da memória.
Nessa, ele não morrerá nunca
- está prestes a ressuscitar. 

Autora: Si Caetano 
Belo Horizonte, 07/04/2016


Enlatados
Eles são bem chatos. 
Querem que eu seja
como eles são. Monocromáticos.
Não dá, eu desisti. 
Eu não caibo no padrão 
não sei fazer à moda 
nasci para ser artesão.
Levo tudo comigo
da raiva ao perdão 
e me refaço.
Não sirvo ao padrão 
sou peça única 
da minha própria coleção

E você acha que pode me comprar?
Não estou à venda 
não sou de coletivos
não me encontrará 
em promoção
não me alinho aos ísmos
não tenho coerência 
não bato continência 
à nada nem ninguém 
não me curvarei 
ao mundo digo não.
Enquanto buscam se encaixar 
eu quebro a caixa
vejo sinal em tudo
mas não me vejo em nada
Meu valor é incalculável
e você ainda acha 
que me comprará com dinheiro? 
Cala boca mundo lixo
seu mercado imundo 
só merece meu desprezo.






  Eu nasci e sempre quis saber porquê
procurei respostas, sentidos, me iludi, cansei...
me conformei.
E quando eu achei que não havia sentido
a vida me leva à metamorfose.
No casulo da minha alma
eu só tinha minhas questões sem resposta
e algumas dores... muitas dores.
Foi quando descobri
o sentido que eu tanto buscava:
estava dentro de mim
A vida é em mim
a potência que me faz evoluir
Quando eu estiver pronta
abrirei minhas asas e voarei rumo a serenidade
de ser quem eu nasci para ser
A terra é um grande casulo cheio de lagartas
em metamorfoses, prazer sou uma delas.






Salvador Dali



Por favor, não se entregue ao limbo em vida, não cai na esparrela de abdicar dos sentimentos, não tenha medo de sofrer, não seja covarde. 

Por favor, sofra. É assim que deve ser.

Têm coisas que só farão sentido depois que você sentir na pele o fogo do não, da rejeição, das suas limitações, você tem que sofrer. Você precisa aprender a sentir dor, é ela que te fará conviver com empatia e te mostrará a verdade: VOCÊ NÃO É IMBATÍVEL. E não deveria ser mesmo, deixa isso para os deuses ou os psicopatas. Não se venere, não venere psicopatas.

Por favor, não finja: uma hora você esquece que está fingindo e passa a ser assim pra sempre. A gente aprende por repetição, então não finja ser o que não é. Deixa seus demônios a mostra. Eles serão exorcizados pelas verdades sobre você. Não tenha medo delas.

Por favor, abra os olhos para tudo que pode ser vivo e transmitir vida a sua alma: não se deixe hipnotizar pela medusa do entretenimento vazio, já experimentou olhar para o céu hoje? 
A natureza te dará respostas, você vai pensar coisas ilógicas, mas se elas fazem sentido para você, considere. Chamamos isso de: intuição. 

Por favor, não mutile sua existência. Não faça dela maneta, cuide de todas as áreas da sua vida como se fosse cuidar de uma flor diariamente e se respeite. Você é parte de um cosmos, organizado e em movimento.

Por favor, não compre ideias baratas, elas te darão ressaca por toda existência. Geralmente, te dão um alívio imediato mas não geram frutos sadios. Estão contaminados pelo mercado da felicidade a qualquer preço, não pague por isso. Não tem valor. Felicidade não pode ser comprada. Cada um deve fabricar a sua.

Por favor, não ignore o valor da vida. Não vá com a manada rumo ao nada. Busque o seu sentido, um caminho que pode ser só seu, e ele certamente será perfeito para você, se não encontrá-lo, crie.

Por favor, não dê tanta importância ao que dizem a seu respeito, incluindo o que você diz. Quem você é de verdade sempre fala mais alto, então descubra quem você é. Ou pelo menos, se dedique a saber mais de você, e goste disso. Seu sistema operacional interno funciona de um jeito único, se colocar algum aplicativo fora do padrão de fabricação, não roda. Lembre-se disso. 

Por favor, sinta e sinta muito.  Jogue fora esse pacote de jargões feitos para robôs, que só sabem repetir funções, comprar peças padronizadas e usar uniformes. Seja um modelo único da sua espécie.

Por favor, seja humano. Um humano que se dedica a aprender a viver. A viver melhor, a tornar a sua vida melhor e a vida das pessoas que estão a sua volta. Você faz parte de algo, todos na natureza cumprem uma função. Descubra a sua.

Tire a etiqueta da testa, você não é produto do mercado, você pensa, você sente. Até uma bactéria tem mais função na terra que um ser humano morto em sua própria existência, se sinta desafiado por ela. 

Te falaram que viemos do caos? Sim. Viemos. Somos um caos. Um baita caos que se organizou e estabeleceu o que ninguém até hoje consegue fabricar. VIDA. 
Então, aproveite a sua da melhor maneira possível. 

Acorda e vive. Viva a vida de ser humano, seja bem-vindo ao planeta terra.
Todos nós precisamos de você vivo e funcionando. 

                                                                               











Não sou poeta
Não precisa medir o que escrevo, categorizar, porque realmente não presta.
Não me interessa a beleza das palavras, me interessa a ideia que elas professam. Por isso, não posso ser poeta.
Sou escrava das ideias e não das palavras, não posso ser poeta.
Sou pretensiosa: quero mexer com âmagos, não posso ser poeta.
Não me interessa fazer rima, falar bonito, ser literatura fina, não posso ser poeta.
Não preciso ser chamada de escritora para escrever, não posso ser poeta. 
Ainda sim, escrevo poesia. Se essa servir para dizer algo, que diga.
Mas, não posso ser poeta e não sou.
Agora posso ser quem sou.
Só uma alma que fala.
Falarei.

A Lagarta - Si Caetano





Se o nosso pensamento voa por alguns segundos e não encontra lugar de repouso, algum sentimento vai querer nos dar abrigo, nunca saberemos qual. Tenho a sensação que a tristeza é a primeira a se apresentar e como somos carentes, não queremos dispensar a companhia, a convidamos para entrar. Ela se instala no peito, pronto. Colocamos uma música sombria para ela fazer mais sentido, começamos a pensar com sua energia e o que era apenas um vagar sem motivo se torna um pensamento fixo: nada faz sentido. Estamos tristes, sem forças, sugados, cansados de respirar, sem vida, sem motivos para movimentar, então nos sabotamos. Primeiro, deixamos de organizar nossas coisas, depois atolamos tarefas, em seguida perdemos a vontade até de tomar banho, e por fim o sono profundo nos consome como se a vida tivesse nos abandonado. Nos esforçamos para fazer o básico, ir ao banheiro, se alimentar, tentamos de todas as formas disfarçar que nesse momento não temos mais nada além de incômodos. Parece que fica um gosto amargo na boca, ter que engolir a própria saliva é uma penitência. O único pensamento que alivia é o que não temos quando estamos dormindo, por isso corremos para lá. O que era para ser um momento se transforma em horas, dias, meses, anos, uma vida inteira. Tínhamos uma rotina, um plano, algumas expectativas e de repente, nos abortamos em vida. 

A depressão é isso, uma tristeza que se instala perpetuamente, como um modo de ser. É como se a tristeza modificasse nossa forma de ver o mundo, de sentir e perceber a vida. Eu não chamo de depressão uma tristeza com causas reais de dor, fruto do luto, da desgraça, da doença, da injustiça, eu chamo de depressão essa forma de viver em que não suportamos lidar com as questões mais fundamentais da vida, tudo é pesado, tudo vira motivo para reforçar nossa falta de sentido. É um buraco escuro, cheio de lama que quanto mais a gente tenta sair mais fundo parece que caímos. Não é voluntário, que fique claro. Alguns de nós têm em si pré-disposição a dar lugar à ela, outros podem estar com o biológico alterado, e por falta de certas enzimas no organismo, ela encontra eco e espaço. São muitas as razões pelas quais ela pode entrar. O que eu sei é que não precisamos dela. Não precisamos receber ordens de uma entidade tão nefasta. 

O vírus é uma incógnita para a ciência pois, ele tem comportamento de ser vivo mas quando está dentro de um, fora do ser humano ele não tem as mesmas características. Dentro, ele se reproduz, impregna o ser infectado com seu material genético. Para mim a depressão é um vírus emocional. Não sabemos exatamente da onde ela vem, como ela chega, por que ela existe, qual sua origem inicial, mas sabemos que se ela entrar, ela vai se reproduzir como um vírus. Ela tem seu DNA próprio, seus códigos estão cheios de dor, morte, ausência de sentido e tristeza. 

Mas como um vírus, ela pode ser evitada, combatida, e destruída. Não podemos ignorar a depressão como se ela não fosse o que é: uma doença. E sim, é contagiosa. Dê uma olhada ao seu redor, dê uma olhada em você. Se pergunte a quanto tempo sua mente te fala da mesma dor, do mesmo pé na bunda, do mesmo fracasso, da mesma rejeição? Há quanto tempo você está levando sua vida mais cedo para cama, há quanto tempo suas gavetas estão desorganizadas? Há quanto tempo você não sorri com a vida? Há quanto tempo você disse para você que não vale a pena? Há quanto tempo você desistiu? É a resposta para estas perguntas que dirá se o que existe na gente já é patológico, ou não. Independente do que seja, compartilhe com outras pessoas, peça ajuda. Não fique dentro de você por muito tempo, sozinho. Você pode esquecer o caminho de volta. 

Eu não saberei te responder qual o sentido da sua vida, quais as respostas para suas dores, qual a saída do seu caos, mas eu sei que não precisamos deixar ela entrar. Eu sei que para mim funciona viver, com toda verdade da minha existência, ainda que sem respostas, estou buscando no dia de hoje, o sentido para acordar, respirar, descobrir o que eu gosto, quais são meus gostos, meu DNA próprio, a parte que cabe a mim nesse mundo. Sem vagar demais no pensamento, sem dar asas ao que não encontra repouso, e dentro de todas as características que descubro a cada dia, a que mais me surpreendo é a de ressuscitar. Somos feito de vida. É inerente a nós.  

Talvez aquela música bonita, um café, suspiros leves possam ser pequenas chances que a gente se dá para tomar fôlego, aliviar o peito e continuar. Tenhamos cuidado com as nossas tristezas, jamais apego. Quando o pensamento vagar, observe-o e cuide para que ele não traga junto uma presença indesejada. Se ela (tristeza) já estiver com você deixa ir, precisamos de companhias melhores.