15 de setembro de 2021

Sobre xícaras e profundidade



Tem a profundidade de uma xícara, é o que eu digo sempre de quem não vai fundo nas coisas. Mas nem tudo é para ser mergulho, às vezes é só para molhar a pontinha dos dedos e sentir aquele ventinho de verão no final da tarde, é tão gostoso - não precisa ter sentido além disso. Estar onde se está, e não buscar nada além da presença presente, é bonito, é leve.  

Mas nem sempre é simples assim, alguém inventou que tudo precisa ter sentido e significado para além do que estamos vivendo, e talvez, essa seja nossa maldição. É que a linguagem permite que a gente deseje o que não se pode pegar, pior, a linguagem permite que a gente tenha fome de significados abstratos, por exemplo, desejamos o amor do outro, desejamos o desejo do outro, mas o que é isso afinal se não uma imbecilidade que afoga nossa mente em tristeza e agonia?

A gente quer tomar o café pela manhã, ser o café, a xícara, e o pó que sobrou na borra da garrafa. Quando isso não acontece, a água passa da fervura e seca antes mesmo de chegar na garrafa. Era só um cafezinho mas parecia uma ópera angustiante - é isso que o desejo faz com coisas tão simples, vira vício, dá abstinência. 

Quando não tem mais motivo para ferver a água, vai querer criar um. É aí que vai jogar a xícara no chão para ela se quebrar em mil pedaços porque assim talvez, algum dia, ela se junte novamente. Não importa o que ela era, pegou a agonia pelo pescoço e a afogou no raso, sem dar nova chance para o tempo de fervura da água com o pó, preparar aquele cheirinho de fim de tarde. Deixa para lá, é melhor se afogar no raso que boiar no vazio. 

Si Caetano 


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