11 de junho de 2016

Isca


A vida dela nunca mais foi a mesma desde que percebeu que poderia dar asas aos seus desejos sem pensar no que isso te causaria, embora soubesse, ela tinha molejo, ela tinha ginga de quem gosta de caminhar em abismos para recuperar o valor do chão firme. Gabriela era dessas pessoas com cheiro de vinho e alegria de criança, caçadora disfarçada de isca, traçava seu caminho com toda força de quem sabe andar sozinha, mas, atraía presenças como alguém que não sabe ser só.

Se fez companhia por questão de sobrevivência, houve um tempo em que ela se manteve enclausurada para se fortalecer, foram tempos difíceis e necessários. Mas quando chegou a hora, ela decidiu sair, saiu de si. Foi dar uma volta no mundo. 
Gabi aprendeu a se proteger de tudo, menos de si. Numa volta incerta, ela se traiu, ela vive colecionando traições consigo mesma. 

Seu faro sentiu  o cheiro da presa, seu olhar trazia fogo de quem quer ser queimado, de quem não poupa vida para depois, não era uma presa qualquer. Era Ele, seu problema desnecessário mas extremamente válido. Ela não sabia seu nome, não podia corresponder, não assim. Mas de certa forma, ela já tinha dado não apenas sim, mas apostado sua alma e sua sanidade em silêncio, no olhar, observando gestos, falas e detalhes, ela sabe descrever cada detalhe, mas não vai admitir, não agora.

Naquele dia ela saiu sem grandes perspectivas, só queria aprender um pouco mais da vida e sua maior pretensão era ouvir as pessoas, ela gosta de perceber o que as pessoas dizem enquanto se sentem seguras, mas Ele não disse uma palavra e aquilo gritou muito forte dentro dela. Durante aquele  breve tempo, Gabriela já tinha analisado tanto aqueles cabelos negros com jeito de quem acabou de descer na rodoviária da existência que era questão de oportunidade, e se ela não acontecesse espontaneamente, ela criaria. Ela era dessas, não espera o acaso, ela é o seu acaso. Não tem a quem culpar. Se der certo é culpa dela, se der errado ela sabe, sempre soube.

Chegou a hora, ela se levantou e aproximou. Todos estavam de pé, havia uma movimentação em torno da porta de saída.

- Oi, tudo bem? 
- Tudo. E você? Gostou do lugar?
(Ela não precisou de muito esforço)
- Sim, adorei. Gostei de tudo, parece que voltarei mais vezes. E você?
- Também, não conhecia nada mas é como se conhecesse. 
- Entendo, bom, estou indo, você tem como ir embora? 
- Tenho, mas preferiria não ter se você for me oferecer uma carona. 
- Risos. Quer carona? 
- Claro. 

Ela conseguiu, ela é isca de sua caçada. Nada aconteceu neste momento, mas tudo o que não poderia ter acontecido, aconteceu. Ele não vai ser apenas uma carona que ela ofereceu num dia de semana qualquer, aquele era o começo do fim da paz que ela havia conquistado durante anos.
Mas ela sabia disso e sorriu.




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